A Amazônia pode estar prestes a enfrentar um dos maiores desafios climáticos de sua história recente. Modelos utilizados por centros internacionais de monitoramento apontam para a possibilidade de um El Niño 2026-27 de grande intensidade. Toda projeção dessa natureza exige cautela: a ciência do clima trabalha com probabilidades, não com certezas. Mas os sinais atuais justificam atenção e, sobretudo, preparação.
Mais importante do que saber se este será um dos maiores El Niños já registrados é compreender que ele poderá atingir uma Amazônia muito mais vulnerável do que aquela que enfrentou os grandes episódios de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. O planeta está mais quente, a floresta perdeu milhões de hectares de cobertura vegetal e as queimadas se tornaram mais frequentes. Além disso, a região ainda sente os efeitos das secas extremas de 2023 e 2024.
Esses dois anos oferecem uma referência concreta do que está em jogo. Em Manaus, o Rio Negro atingiu níveis historicamente baixos, comprometendo a navegação e isolando comunidades. Lagos registraram temperaturas próximas ou superiores a 39°C, associadas à mortandade de peixes e botos. A combinação de calor, seca e fogo também agravou a poluição do ar, transformando a fumaça em um sério problema de saúde pública.
Secas consecutivas deixam marcas duradouras. Árvores submetidas repetidamente ao estresse hídrico tornam-se mais suscetíveis à mortalidade. Os solos permanecem mais secos, a floresta perde parte de sua capacidade de reciclar umidade e o fogo encontra condições mais favoráveis para se espalhar. A Amazônia chega, portanto, ao possível El Niño de 2026-27 em condições de maior fragilidade.
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e altera a circulação atmosférica global. Na Amazônia, está frequentemente associado à redução das chuvas, aumento das temperaturas e prolongamento da estação seca. Hoje, porém, seus efeitos se somam ao aquecimento global, ao desmatamento e à degradação florestal.
Uma floresta saudável possui grande capacidade de resistir às estiagens. A evapotranspiração das árvores recicla enormes volumes de água e alimenta os chamados “rios voadores”, fundamentais para o regime de chuvas da Amazônia e para o transporte de umidade ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quando a cobertura florestal é reduzida e degradada, esse mecanismo perde eficiência.
É essa combinação que torna o cenário particularmente preocupante. O El Niño não representa apenas um fenômeno meteorológico: pode funcionar como multiplicador de riscos ambientais, sociais e econômicos. Cada novo evento ocorre sobre um planeta mais quente. Assim, mesmo um El Niño de intensidade semelhante aos anteriores pode produzir impactos maiores.
Uma nova redução expressiva da vazão dos rios teria consequências imediatas. Durante a seca de 2023, 60 dos 62 municípios do Amazonas chegaram a decretar situação de emergência ou alerta. Em muitos trechos, embarcações reduziram cargas, interromperam rotas ou recorreram a operações de transbordo. Na Amazônia, o rio não é apenas um recurso natural: é a principal infraestrutura pública de transporte.
Milhares de comunidades ribeirinhas e centenas de aldeias indígenas dependem dos rios para transporte, alimentação, saúde, educação e acesso aos mercados. Nas secas recentes, famílias tiveram de caminhar grandes distâncias para alcançar embarcações, aulas foram interrompidas e equipes de saúde tiveram dificuldades para chegar às localidades mais isoladas. A pesca artesanal também foi afetada pela combinação de águas mais quentes, menor oxigenação e mortandade de peixes, agravando a insegurança alimentar e aumentando o custo de vida.
Os efeitos chegam também à economia nacional. O Polo Industrial de Manaus, um dos maiores centros industriais do país, movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano e sustenta mais de 130 mil empregos diretos. Sua logística depende fortemente da navegação fluvial para a entrada de componentes e o escoamento da produção. Nas secas recentes, empresas precisaram reorganizar cadeias logísticas, antecipar estoques, realizar transbordos e, em alguns casos, utilizar transporte aéreo para insumos de maior valor. Uma nova estiagem extrema poderá aumentar custos e reduzir a competitividade da Zona Franca de Manaus.
Há ainda uma dimensão nacional e global. Secas prolongadas, incêndios e degradação reduzem a capacidade da floresta de absorver carbono. Em determinadas regiões e circunstâncias, a Amazônia pode passar de sumidouro a fonte líquida de carbono. Forma-se então um ciclo preocupante: menos chuva favorece incêndios; incêndios degradam a floresta; menos floresta reduz a reciclagem de umidade; e menor umidade aumenta o risco de novas secas. Isso afeta todo o Brasil e tem consequências globais.
É nesse contexto que se insere o debate científico sobre um possível ponto de inflexão da Amazônia. Não existe consenso sobre quando ou em que extensão esse limite poderá ser alcançado. Há, entretanto, crescente preocupação com a interação entre aquecimento global, desmatamento, degradação e eventos climáticos extremos.
É importante evitar simplificações. Nem toda seca amazônica decorre do El Niño. O Atlântico Tropical e outros fatores atmosféricos também influenciam fortemente as chuvas. Tampouco é possível afirmar, neste momento, qual será a intensidade definitiva do El Niño 2026-27. Mas uma constatação é inequívoca: os eventos climáticos extremos de hoje ocorrem em um planeta mais quente e sobre uma Amazônia mais vulnerável.
Preparar-se para esse cenário exige tratar a adaptação climática como política econômica, social e ambiental. É necessário fortalecer a Defesa Civil, preparar comunidades e aldeias para situações de isolamento, garantir estoques estratégicos de alimentos, medicamentos, água potável e combustível e estabelecer planos de contingência para saúde, educação e transporte.
Ao mesmo tempo, é preciso aumentar a resiliência estrutural da Amazônia: reduzir o desmatamento e as queimadas, combater incêndios florestais, restaurar áreas degradadas e nascentes, reduzir a poluição dos rios e adaptar portos, hidrovias, cidades e cadeias logísticas às novas condições climáticas.
Se as projeções atuais se confirmarem, o El Niño de 2026-27 será mais do que um teste meteorológico. Será um teste da capacidade do Brasil de antecipar riscos e adaptar sua economia e suas políticas públicas a uma nova realidade climática. Preparar a Amazônia para os extremos que virão deixou de ser apenas uma agenda ambiental. É uma questão de desenvolvimento, saúde pública, segurança econômica e futuro do Brasil.
Publicado originalmente no site Valor Econômico, em 03/09/2026
Créditos de imagem: Raphael Alves/ O Globo