A resposta começa por uma contradição. A Amazônia é úmida, mas extremamente vulnerável ao fogo
Manaus vive uma situação preocupante. A fumaça das queimadas, cada vez mais frequente, transformou a poluição do ar em ameaça à saúde e à qualidade de vida. Como explicar que uma cidade cercada pela maior floresta tropical do planeta sofra uma crise tão grave?
A resposta começa por uma contradição. A Amazônia é úmida, mas extremamente vulnerável ao fogo: ao longo de sua história evolutiva os incêndios foram raros, e a maioria das espécies não resiste às chamas. Hoje essa fragilidade é agravada pelas mudanças climáticas e pela ação humana. Secas prolongadas, desmatamento e degradação florestal ressecam a vegetação. Forma-se um círculo vicioso: a degradação favorece o fogo, e o fogo provoca mais degradação. Episódios de super El Niño, como o de 2026-27, tendem a agravar o quadro, aumentando a temperatura e a duração da estação seca.
É preciso distinguir cinco situações: as queimadas da fronteira do desmatamento, para formar pastagens e grilar terras públicas ilegalmente; o fogo tradicional no preparo de roçados da agricultura familiar; as queimadas urbanas e periféricas, iniciadas pela queima de lixo, entulho e resíduos vegetais; as queimadas legais, que representam a minoria das situações; e os incêndios que atingem florestas primárias e secundárias, causadas por queimadas que escapam ao controle. Cada uma exige políticas específicas e uma nova cultura de responsabilidade coletiva.
As consequências são dramáticas. A fumaça contém partículas finíssimas, as PM2,5, que penetram fundo nos pulmões e chegam à corrente sanguínea. Elevam o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, agravam asma e bronquite e atingem sobretudo crianças e idosos. Na Amazônia profunda, aldeias, comunidades ribeirinhas e cidades do interior sofrem mais pela distância dos serviços de saúde. É uma injustiça climática: quem mais ajuda a manter a floresta em pé está entre os que mais sofrem com os incêndios.
O que fazer? Primeiro, é preciso investir de forma permanente em prevenção, monitoramento, alertas, brigadas comunitárias, fiscalização e assistência técnica para substituir o fogo na agropecuária. Segundo, tratar a poluição do ar como questão de saúde pública, com um sistema transparente de monitoramento, como a rede Selva, da UEA, e protocolos claros para escolas, hospitais, empresas etc. Terceiro, reforçar a cooperação entre município, estado e União, pois a fumaça não respeita fronteiras administrativas. Quarto, criar uma abordagem econômica: projetos de prevenção e combate a incêndios reduzem as emissões de carbono e isso pode vir a fazer parte do mercado brasileiro de emissões, agora amparado por uma lei e regulamentações da esfera federal.
Manter nossas florestas vivas e livres de incêndios também é questão de interesse nacional: sua evapotranspiração sustenta as chuvas que alimentam a agropecuária, a energia e a água para consumo nas cidades em grande parte do Brasil. Como dizia o ilustre professor Samuel Benchimol, quem se beneficia dos serviços ambientais da Amazônia deveria contribuir para conservá-la. Precisamos de novos mecanismos para financiar o pagamento por serviços ambientais da Amazônia.
Esse tema deve ser tratado de forma suprapartidária, com inovação tecnológica e base científica. Temos um sério problema pela frente e isso requer uma abordagem sistêmica e uma estratégia de longo prazo. Não existem soluções simples, mas o problema pode ser enfrentado de maneira eficiente. Existem iniciativas exitosas que podem servir de referência.
Neste período eleitoral, os candidatos precisam dar mais atenção ao tema. Os eleitores devem cobrar propostas e olhar para o histórico de cada um e perguntar: quem está mais preparado e comprometido com o enfrentamento das queimadas? Respirar ar limpo é um direito de todos. Manaus precisa deixar de ser símbolo da fumaça para se tornar referência na proteção das florestas. Cuidar da floresta é cuidar da saúde, da economia e do futuro de todos nós.