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Casarão do Punã: das ruínas ao ‘futuro brilhante’ no interior da Amazônia

Por Júlia Beatriz de Freitas - 09/06/2022

“Muito bom estar assistindo cinema no casarão”, exclama uma menina sentada ao lado de mais crianças, que aparentam ter entre 5 a 14 anos. É final de abril de 2022, e o Núcleo de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável (Nieds) José Márcio Ayres promoveu quatro dias de brincadeiras, rodas de conversas, filmes e, claro, pipoca para manter a criançada animada. 

O tal casarão está na comunidade ribeirinha do Punã, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no município de Uarini, a 565 quilômetros da capital do estado do Amazonas, Manaus. 

Datado do ciclo da borracha, a Casa Punã, como também é conhecido o lugar, serviu como entreposto de mercadorias por anos desde que foi levantada, em 1922. Mas locais de comercialização são lugares de história. Carregam, em suas estruturas, algumas delas boas, outras trágicas. 

 

ANTES

Foto: Rodolfo Pongelupe

 

DEPOIS

Foto: Rodolfo Pongelupe

 

Com 100 anos de existência, o casarão é repleto de histórias.

Foto: Rodolfo Pongelupe

Como a história de um patrão que explorava os moradores locais num sistema de aviamento, considerado de semiescravidão. Rodeadas por um matagal, as antigas paredes descascadas pelo tempo remetiam aos moradores da comunidade um passado marcado pela abundância de recursos que sentiam, todo dia, escorrer pelas mãos. 

Borracha, óleo de peixe-boi, peles de animais e tantos outros produtos da região eram comprados pelo “patrão” para vender aos barcos que atracavam na comunidade a preços sobrevalorizados. Por outro lado, o comprador vendia, para a comunidade, produtos que vinham de fora, como sal e café. Tudo isso pelo preço que estabelecia, sem discussões ou negociação justa.

“A casa representa esse momento, de um lado, trágico, e, de outro, um momento econômico gerador de riqueza”, comenta Virgilio Viana, superintendente geral da FAS. Essa era a riqueza do período áureo da borracha, simbolizada hoje pelas paredes rosadas e estrutura extravagante do Teatro Amazonas, no centro histórico de Manaus.

O Casarão gera renda e qualidade de vida para os comunitários.

Foto: Rodolfo Pongelupe

Francisca Cordeiro tem 63 anos e se relembra com clareza desse momento. “Foi muito doído para várias pessoas, foi sofrido para quem trabalhou”, comenta. O “patrão”, relembra, morreu sozinho e idoso dentro do próprio casarão. Não se sabe como. 

Eram quatro paredes e uma armação de telhado no casarão, colocado à venda e comprado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), assim que visto o anúncio. 

A FAS já atuava na comunidade com projetos de empreendedorismo em prol da conservação da floresta e pela valorização dos povos que vivem nela, conforme o propósito  da instituição.

“Nós não tínhamos recursos para fazer a recuperação desse patrimônio histórico, e o que fizemos então foi espremer de todos os recursos que tínhamos: um pouquinho de madeira, um pouquinho pra comprar a tinta, etc”, comenta Virgilio. 

Foi aí que foi feito o convite ao arquiteto Sérgio dos Santos. A arquitetura, diz Sérgio, tem o poder de mobilizar, mudar costumes e hábitos. Assim que ele pisou no local, percebeu o que o casarão era então: apenas quatro paredes e “um pouco de armação do telhado”. 

A mão de obra foi feita pela própria comunidade.

Foto: Rodolfo Pongelupe

MADEIRAS RETIRADAS DOS NAVIOS QUE LEVAVAM MADEIRAS DA EXPLORAÇÃO

 

Foi feita uma pesquisa com os idosos da comunidade, responsáveis pelas memórias mais vívidas dos tempos primórdios do local. 

Ransque Miguel de Oliveira, uma das lideranças da comunidade e gestor do núcleo da FAS, lembra das atividades do pai no local. Os navios chegavam à comunidade e a madeira saía de lá, do casarão, para logo partir pelas águas em direção à capital. “Meu pai tirava muita madeira pros navios a vapor naquele tempo”, diz. 

Ouvindo as histórias de jovens e anciãos, a equipe da FAS teve uma ideia.

Foram até o Porto de Manaus. “Achamos um barco que estava naufragado, compramos e esse barco foi desmontado lá em Manaus, e veio pra cá a madeira de itaúba. Conseguimos também telhas usadas que foram compradas em vários locais de demolição, mas eram telhas típicas da época”, comenta Virgilio.

O casarão foi reformado usando madeira reutilizada de barco.

Foto: Rodolfo Pongelupe

“A ideia foi pegar a madeira reutilizada de barco para montar o casarão todo com ela. Para reformar o local, nós conseguimos um barco que não navegava mais, trouxemos pra cá, desmanchamos, e todo o assoalho, todo o telhado que foi restaurado, portas, janelas, tudo foi feito com essas madeiras”, relembra o arquiteto. 

As obras começaram e terminaram, tudo com mão de obra local, da própria comunidade.

A escolha do método também fez parte da transformação do local. “Eles [os comunitários] têm um sentimento de pertencimento, por terem trabalhado em todas as obras, por terem construído. Isso tudo gera para a comunidade um pertencimento. É diferente de uma empresa que chega aqui, faz uma obra, vai embora e entrega a chave”, explica o profissional.

O contato entre o arquiteto e os contratados excedeu o método de comando e execução das obras de construção. Miniaulas de desenhos arquitetônicos, leitura de planta baixa, ensinamentos sobre cores, equipamentos tecnológicos e outros assuntos de pouca familiaridade entre os moradores foram apresentados durante a reforma. 

Para além da geração de renda pela contratação dos próprios comunitários e o sentimento de pertencimento, ficou a qualificação na comunidade, cujo casarão tem um peso histórico inestimável.

 

Além da geração de renda, a obra proporcionou a qualificação dos comunitários.

Foto: Rodolfo Pongelupe

“Com a inauguração do casarão, eu tô vivenciando a minha história, a importância disso para a nossa comunidade, para a nossa cultura”, comenta Ransque.

O ensinamento começou ainda na reforma, mas foi transposto para o casarão inaugurado, agora palco de cursos de educação e empreendedorismo, além de casa de cultura para as mais diversas atividades, como o cinema.

“Foi idealizado um projeto de que aqui funcione como um receptivo de pessoas que venham acompanhar as atividades desenvolvidas pela FAS, pelos parceiros, e, ao mesmo tempo, um ponto cultural, que sirva como uma casa de cultura”, explica o superintendente.

Lorem Miguel, jovem da comunidade, cresceu vendo a casa abandonada. 

“Às vezes eu passava por aqui e até perguntava pra minha colega, pras minhas primas e dizia assim ‘quem diria que um dia o antigo casarão ia estar reformado dessa maneira?’. A gente nunca imaginou”, comenta.

Para a estudante, a comunidade do Punã, conhecida apenas como “o Punã”, ainda está sendo descoberta. “Tem coisas aqui que a gente gosta, que a gente quer mostrar, mas não sabe como”.

O casarão é utilizada para cursos de educação e empreendedorismo, além de casa de cultura para as mais diversas atividades, como o cinema.

Foto: Samara Souza

A comunidade tem cerca de 800 moradores, em maior parte pescadoras e agricultoras. 

Francisca tem apego à terra que vive. “Trabalho num pedaço de terra, moro num pedaço de terra do Punã, e tenho o maior ciúme do pedaço de terra que planto e crio”, comenta.

As famílias enxergam, a cada ano que passa, a terra ameaçada pelos efeitos do desmatamento na região.

Para Pedro Alves, um dos estudantes do Curso de Gestão em Desenvolvimento Sustentável realizado pela FAS e Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam)no local, em parceria com a Petrobras, a degradação ambiental é a maior ameaça à comunidade.

Com negócios sustentáveis, diz o jovem, forma-se maior chance de manter os jovens na comunidade. 

Sete projetos foram selecionados para receber o aporte de R$ 25 mil na implementação dos empreendimentos em comunidades ribeirinhas.

Foto: Rodolfo Pongelupe

“Eu acho de extrema importância esse curso porque é uma possibilidade para os jovens que já terminaram o ensino médio e não estão trabalhando e nem estudando de ter uma oportunidade incrível e única para que ele possa ficar aqui e se especializar em algo que ele gosta, voltado para comunidade”, comenta. 

Após um ano de curso de gestão em desenvolvimento sustentável para ribeirinhos do Punã e de comunidades do entorno, sete projetos foram selecionados para receber o aporte de R$ 25 mil na implementação dos empreendimentos em comunidades ribeirinhas.

Negócios da comunidade do Punã responderam por seis dos sete selecionados: o Açaí do Tony, o Salão de Beleza, a Lanchonete do Ari e o Turismo Punã receberam o apoio após a formação dos técnicos. 

Trabalhar na terra, ficar na comunidade com geração de renda e qualidade de vida é o propósito hoje do Casarão do Punã, lugar transformado.

“Eu quero ver um futuro brilhante como nós não chegamos a ver com os donos. Mas quem sabe isso não era um sonho deles, como a velha sempre me dizia isso”, comenta Francisca. No casarão, o futuro vislumbrado por Francisca está chegando.