Tainara Kambeba cresceu acompanhando a presença do Núcleo de Conservação e Sustentabilidade Assy Manana na comunidade Três Unidos. Ao longo dos anos, ela viu o espaço receber crianças, adolescentes, professores e iniciativas voltadas à formação dos moradores. Contar essa história, portanto, também é lembrar das mudanças vividas por quem cresceu ao redor dele.
Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) da Margem Esquerda do Rio Negro, em Manaus, o Assy Manana foi inaugurado em 18 de novembro de 2011. Desde então, tornou-se uma referência para a educação e para o desenvolvimento de ações relacionadas à sustentabilidade e à vida comunitária.
Em uma região onde os rios são as principais vias de deslocamento, ter uma escola mais próxima faz diferença na rotina das famílias. Ainda assim, nem todos os estudantes moram em Três Unidos. Parte deles sai de outras localidades e enfrenta o percurso de lancha para chegar às aulas.
“A gente tem a escola dentro do Núcleo, onde estudam crianças e adolescentes da própria comunidade e também de outras comunidades. Essas crianças vêm de lancha e participam dos projetos desenvolvidos aqui. Existe uma articulação e um diálogo com as comunidades para a realização dessas atividades. Então, tanto quem mora em Três Unidos quanto quem vem de outras comunidades participa dos projetos que chegam ao território”, explica Tainara.
Ao reunir estudantes de diferentes localidades, o Assy Manana tornou-se um ponto de encontro na região. O alcance das ações desenvolvidas no local ultrapassa os limites de Três Unidos e envolve também famílias que vivem no entorno.
A implantação dos núcleos foi motivada por desafios observados pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) durante o desenvolvimento do Programa Bolsa Floresta. Entre eles estavam o abandono escolar, a pequena quantidade de aulas ministradas durante o ano e as condições enfrentadas pelos professores.
Muitos educadores não eram das localidades onde trabalhavam. Vinham de fora e, ao chegar, nem sempre encontravam uma estrutura adequada para morar e exercer suas funções. Em alguns lugares, as aulas aconteciam em casas de famílias ou em ambientes improvisados, sem as condições necessárias para favorecer a concentração e o aprendizado dos estudantes.
De acordo com o coordenador de Articulação Institucional da FAS, Ademar Cruz, esse cenário ajudou a orientar a criação de um modelo mais adequado às características do interior do Amazonas.
“Começamos a idealizar o que faltava para ter uma educação de melhor qualidade e uma estrutura que desse ao professor condições de ministrar uma boa aula. Também pensamos em uma educação que tivesse a identidade das comunidades e estivesse relacionada ao contexto da vida comunitária”, afirma.
Além das salas de aula, o modelo previa ambientes destinados a professores, estudantes e profissionais responsáveis pela manutenção do espaço. Os alojamentos foram pensados para receber pessoas que precisavam permanecer no local por causa das grandes distâncias e das dificuldades de deslocamento.
A proposta também buscava aproximar o ensino do cotidiano das famílias. Mais do que oferecer os conteúdos escolares, esses espaços deveriam estimular conhecimentos relacionados à conservação ambiental, à produção sustentável e às possibilidades de desenvolvimento local.
“A ideia não era ensinar somente a ler e escrever. O Núcleo também deveria receber projetos capazes de mostrar outras possibilidades às comunidades e servir de inspiração para que gestores públicos replicassem esse modelo em outros territórios”, acrescenta Ademar.
Antes da existência de estruturas como o Assy Manana, continuar os estudos podia significar deixar a comunidade e passar a morar na cidade. Essa mudança nem sempre era possível para as famílias e podia interromper a formação de crianças e adolescentes.
Estudar próximo de casa permite que os jovens mantenham a convivência familiar e participem da vida comunitária. Eles continuam ligados à cultura, aos conhecimentos tradicionais e às atividades realizadas no lugar onde cresceram.
Para a população indígena Kambeba de Três Unidos, essa relação também contribui para que a educação dialogue com a identidade do povo e com sua forma de viver. O conhecimento transmitido dentro das famílias pode encontrar o conteúdo aprendido na escola, sem que um precise substituir o outro.
As atividades desenvolvidas no Assy Manana não ficam limitadas ao ensino regular. Ao longo dos anos, o espaço recebeu iniciativas relacionadas à comunicação, às mudanças climáticas, à educação ambiental, à saúde e à qualificação profissional.
Essas formações ampliam o acesso dos moradores a conhecimentos que podem ser aplicados na própria comunidade. Também ajudam os participantes a reconhecer problemas, discutir soluções e compartilhar aquilo que aprenderam com outras pessoas.
Além das atividades educacionais, o Núcleo apoia o turismo e funciona como uma estrutura de suporte para projetos realizados em Três Unidos e nas comunidades próximas. Visitantes podem conhecer espaços como a horta e o aviário e compreender como essas atividades são desenvolvidas no território.
“As atividades desenvolvidas no Núcleo são voltadas principalmente para a educação e o turismo. O espaço funciona como uma extensão da comunidade e também como um atrativo para os visitantes, que podem conhecer a horta, o aviário e entender como essas atividades funcionam”, explica William Soares, gestor do Núcleo.
O Assy Manana também possui uma estrutura de hospedagem para receber alunos durante cursos e formações.
“O Núcleo possui uma estrutura de hospedagem para receber os alunos durante os cursos e também as equipes que atuam em campo. Isso facilita o trabalho, aproxima as atividades das comunidades e contribui bastante para a região”, acrescenta.
Para William, a presença de estruturas como o Assy Manana é essencial não apenas para Três Unidos, mas para todas as comunidades localizadas nas reservas onde a FAS atua. Além de apoiar a educação, os núcleos contribuem para fortalecer o empreendedorismo e ampliar as alternativas de geração de renda.
“Os núcleos são essenciais para melhorar a educação, fortalecer o empreendedorismo e criar novas oportunidades. Sem o apoio da FAS, muitas comunidades talvez não tivessem hoje a possibilidade de trabalhar com turismo e artesanato”, conclui.
O supervisor de projetos da FAS, Enoque Ventura, acompanhou parte desse processo. Para ele, os conhecimentos adquiridos durante as atividades contribuíram para sua formação pessoal.
“Atualmente, em Três Unidos, temos professores, técnicos de enfermagem, agentes de saúde e cozinheiras profissionais. A FAS traz projetos que fortalecem esses conhecimentos e criam novas oportunidades”, afirma.
Para ele, dar continuidade às formações é uma maneira de alcançar novos moradores e preparar outras gerações.
“Que esses bons projetos, aprendizados e valores continuem, porque representam esperança para a nossa região”, completa.