Na maioria das comunidades amazônicas, o dia começava cedo — não por escolha, mas por necessidade. Antes do sol nascer, mulheres e crianças já estavam de pé. O destino era o rio. Baldes nas mãos, passos apressados, o cuidado constante para não escorregar, não cair, não se machucar. A água que levavam para casa era a mesma usada para tudo: beber, cozinhar, lavar, viver. Nem sempre limpa. Nem sempre segura.
Onde há mais água, há menos acesso
Na Amazônia, uma das maiores contradições do Brasil se revela: apenas 64,2% da população da região Norte tem acesso à água tratada — cerca de uma em cada três pessoas ainda vive sem acesso regular a esse recurso básico. A situação se agrava com a falta de saneamento: cerca de 85% da população não conta com coleta de esgoto, o que contribui para a contaminação da água.
Esse cenário está diretamente relacionado à ocorrência de doenças evitáveis, como diarreia, verminoses, hepatite A e cólera, que afetam principalmente as populações mais vulneráveis.
“Quando a gente ouve das comunidades os problemas que eles enfrentam por falta de acesso à água, a gente tem que juntar esforços e atender.”
Durante a seca, o cenário piorava. O nível do rio baixava, a água ficava mais turva e o esforço aumentava. Em alguns casos, o acesso se tornava quase impossível.
“Era muito dificultoso. A gente tinha que descer com o balde para pegar água no rio e a gente fazia isso várias vezes no dia. Lavar roupa, lavar louça, tudo na beira do rio.”