Os povos indígenas, quilombolas, pescadores, extrativistas, ribeirinhos e outras populações tradicionais desempenham um papel essencial na conservação da maior floresta tropical do planeta. São eles que mantêm vivos saberes ancestrais, práticas e formas de ocupação do território fundamentais para proteger a Amazônia e, consequentemente, contribuir para o equilíbrio climático global.
Paradoxalmente, essas mesmas populações estão entre as mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima. Secas severas, cheias extremas e incêndios florestais têm quebrado recordes históricos. As alterações no regime de chuvas comprometem a segurança alimentar, dificultam o transporte fluvial — principal meio de deslocamento em boa parte da região — e ampliam os desafios enfrentados por quem vive na floresta. Apesar disso, essas populações continuam tendo acesso limitado aos mecanismos nacionais e internacionais de financiamento climático.
Esse paradoxo nos leva a uma pergunta fundamental: como fazer com que os recursos destinados à adaptação climática cheguem efetivamente às comunidades mais vulneráveis e que, ao mesmo tempo, são as principais responsáveis pela conservação da floresta?
Essa foi uma das questões centrais debatidas tanto em Belém, na COP30, quanto recentemente, em Bonn, durante a pré-COP que prepara o caminho para a COP31, na Turquia. Mais do que discutir novos compromissos internacionais, o desafio agora é transformar recursos financeiros em soluções concretas para quem está na linha de frente da crise climática.
Foi justamente para responder a essa pergunta que surgiu, em 2025, a Jornada COP30: um amplo processo participativo voltado à construção de Planos de Ação Climática Territorial em toda a Amazônia. A iniciativa mobilizou 1.285 participantes de todos os estados da Amazônia Legal, envolvendo comunidades e aldeias de povos da floresta na identificação de prioridades e na construção de propostas concretas para fortalecer a adaptação climática em seus territórios. O processo partiu de três perguntas simples e fundamentais:
- Como cada comunidade percebe as mudanças no clima?
- Quais problemas essas mudanças provocam em seu cotidiano?
- Quais são as soluções prioritárias para minimizar esses impactos?
O resultado foi a elaboração de 99 planos. Desses, 60 foram selecionados com base em critérios objetivos e receberam assistência técnica para o detalhamento das prioridades e dos custos de implementação. O conjunto constitui uma das mais abrangentes bases de evidências já produzidas sobre adaptação climática protagonizada por comunidades de povos da floresta.
Esse processo teve seu momento de convergência durante a COP30, com o Banzeiro da Esperança, iniciativa que reuniu, a bordo de uma embarcação na Amazônia, cerca de 200 participantes — entre lideranças indígenas e de populações tradicionais, cientistas, educadores, ativistas, empresários, representantes de governos e outros atores da agenda climática.
No centro desse encontro estavam as próprias lideranças comunitárias, que apresentaram os Planos de Ação Climática Territorial construídos em seus territórios. Mais do que um evento, o Banzeiro da Esperança simbolizou uma nova forma de construir políticas climáticas: partindo do conhecimento de quem vive a floresta, e não apenas de decisões tomadas em gabinetes ou conferências internacionais.
Mais do que produzir planos de ação climática, esse processo revelou que a Amazônia pode funcionar como um verdadeiro laboratório vivo de adaptação climática. As soluções construídas pelas próprias comunidades demonstram que as respostas mais eficazes surgem quando o conhecimento local orienta o planejamento e a implementação de planos de ação. Ao mesmo tempo, mostram que experiências desenvolvidas na Amazônia podem inspirar outras florestas tropicais e contribuir para estratégias de adaptação em diferentes territórios ao redor do mundo.
Um dos aprendizados mais importantes foi a constatação de que a adaptação climática precisa ser construída de forma participativa, a partir das percepções, dos saberes e das prioridades de cada território. Afinal, são as pessoas que vivem nesses lugares que conhecem, na prática, os problemas que enfrentam e também as soluções necessárias para superá-los.
Ao mesmo tempo, ficou evidente que diferentes comunidades convergem em necessidades comuns. Água potável, energia solar, segurança alimentar e conectividade apareceram como prioridades. Depois disso, o próximo passo é criar uma ponte ideológica entre os saberes ancestrais e as tecnologias mais modernas disponíveis. Assim, podemos reduzir custos e aumentar a eficácia das soluções priorizadas.
Esses quatro elementos formam o coração da Mandala de Adaptação Climática, construída a partir da jornada do Banzeiro da Esperança. A Mandala vai além dessas prioridades e propõe uma abordagem sistêmica, incorporando também ações de educação, saúde, conservação ambiental, empoderamento das instituições locais e geração de renda. Mais do que organizar prioridades, ela oferece um método e uma base conceitual capazes de orientar estratégias de adaptação em diferentes contextos, alinhados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e tendo a dignidade humana como princípio orientador.
A análise dos planos permitiu estimar que seriam necessários aproximadamente R$ 21,6 bilhões, ao longo de dez anos, para implementar ações de adaptação climática em cerca de 5 mil comunidades de povos da floresta. Trata-se da primeira estimativa para o custo da justiça climática na Amazônia.
À primeira vista, esse valor pode parecer elevado. No entanto, quando distribuído ao longo de uma década e comparado às cifras nacionais e internacionais, revela-se um investimento relativamente pequeno. No Brasil, equivale a cerca de 0,3% do Plano Safra do Governo Federal (R$ 610 bilhões em 2026). Nas negociações internacionais, corresponde a pouco mais de 1% dos USD 300 bilhões já comprometidos e cerca de 0,3% dos USD 1,3 trilhão previstos para o financiamento das ações climáticas acordadas na COP30.
As prioridades definidas pelos próprios territórios concentram-se em soluções práticas e transformadoras: sistemas comunitários de abastecimento de água, saneamento básico, energia solar, conectividade digital, fortalecimento da bioeconomia, sistemas agroflorestais, proteção territorial e prevenção de incêndios. Essas não são apenas ações de adaptação climática. São investimentos em dignidade humana, qualidade de vida, desenvolvimento sustentável e justiça climática.
Durante décadas, discutimos como melhor proteger a Amazônia. Hoje, porém, já dispomos de um caminho prático e replicável. Sabemos que proteger a floresta passa, necessariamente, por cuidar de quem cuida da floresta. A metodologia foi construída. A estratégia está estruturada. Os resultados já demonstram que é possível transformar prioridades definidas pelas próprias comunidades em ações concretas e investimentos capazes de produzir resultados duradouros.
As negociações realizadas em Bonn reforçam que o verdadeiro sucesso das COPs vai além dos acordos firmados nas conferências internacionais. Ele será medido pela capacidade de transformar compromissos globais em água potável, energia limpa, segurança alimentar, conectividade, fortalecimento das organizações locais, geração de renda, saúde e educação, fortalecendo a resiliência climática daqueles que cuidam da Amazônia.
Agora temos a oportunidade de ampliar a escala dessas soluções, mobilizando recursos para que essa metodologia alcance milhares de comunidades. O que está sendo desenvolvido na Amazônia já oferece uma referência concreta para inspirar outras florestas tropicais e orientar estratégias de adaptação em diferentes territórios.
Dignidade humana, justiça climática e adaptação climática caminham juntas. Cuidar de quem cuida da floresta é uma das formas mais inteligentes e eficazes de manter a floresta em pé e, ao mesmo tempo, cuidar do futuro do planeta.
Virgilio Viana é Engenheiro Florestal pela ESALQ/USP, Ph.D. pela Universidade de Harvard, Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável, Membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais do Vaticano, Professor da Fundação Dom Cabral e Membro do Conselho de Adaptação Climática da COP30.
Publicado originalmente no site Um Só Planeta, em 13/07/2026
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