A história dos Núcleos de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável

Núcleo Agnello Bittencourt fortalece educação e turismo em Tumbira

Oportunidade além de uma estrutura

Na comunidade Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, em Iranduba (AM), moradores que antes precisavam sair para continuar os estudos hoje encontram oportunidades de formação no próprio território. Alguns avançaram para o ensino superior e passaram a atuar como professores. Outros encontraram no turismo de base comunitária uma alternativa de renda à extração de madeira. Entre os jovens, experiências com comunicação, arte e educação ambiental também abriram caminhos para a participação em espaços de decisão.

Essas mudanças fazem parte da trajetória acompanhada pelo Núcleo Agnello Bittencourt, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). A construção faz parte de uma parceria da FAS com o Governo do Estado, co-fundador da FAS juntamente com o banco Bradesco, com o objetivo apoiar as atividades de educação nas áreas de atuação do Programa Bolsa Floresta, gerenciado pela Fundação. O Núcleo é gerenciado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc), em parceria com a Prefeitura Municipal de Iranduba.

Segundo a gestora Alberta Pacheco, o espaço chegou à comunidade em março de 2010 e contribuiu para ampliar o acesso à educação, à saúde e a iniciativas de empreendedorismo.

Para ela, a importância do núcleo está nas oportunidades que sua estrutura permite desenvolver. “Ele vai muito além de ser uma estrutura. A importância que ele tem dentro da reserva é viabilizar as políticas públicas, para os comunitários terem a possibilidade de acessar as políticas públicas que as pessoas que moram na cidade têm acesso”, explica.

Alberta Pacheco — gestora do Núcleo

Segundo a gestora, Tumbira reúne 45 famílias e cerca de 157 moradores, que se beneficiam das atividades do núcleo e do turismo de base comunitária. A atuação também se estende a localidades vizinhas, com formações e iniciativas que ampliam seu alcance dentro da reserva.

Registro fotográfico do Núcleo Agnello Bittencourt e de atividades em Tumbira

Da interrupção dos estudos à formação de professores

Antes da chegada do núcleo, a oferta de ensino na comunidade se limitava aos primeiros anos da formação escolar. Para continuar estudando, os moradores precisavam ir para a cidade, uma mudança que envolvia despesas e nem sempre era possível para as famílias.

Alberta relata que essa dificuldade levou muitas pessoas a interromper os estudos. Quando novas oportunidades chegaram ao território, o público atendido incluía adultos com mais de 40 e 50 anos, que voltaram a estudar depois de um longo período sem acesso à continuidade da formação.

Para a gestora, o custo de permanecer na cidade era uma das barreiras enfrentadas pelas famílias. “Para dar continuidade ao ensino, o comunitário tinha que ir para a cidade. Isso gerava um custo e, muitas vezes, aquela família não tinha condições de se manter na cidade. Aí parava o estudo”, conta.

Com a chegada do núcleo e da escola, moradores puderam retomar a formação mais perto de casa. Segundo Alberta, a demanda inicial reunia pessoas de diferentes idades que não haviam tido essa oportunidade.

Hoje, ela identifica os resultados nas trajetórias de antigos estudantes que concluíram a educação básica, cursaram uma faculdade e passaram a trabalhar na própria região. De acordo com a gestora, todos os professores da escola são atualmente moradores das comunidades.

Essa mudança fortalece o protagonismo local. “A gente tem alunos que se formaram ali, fizeram faculdade e hoje são professores. Antigamente, eram professores que vinham de fora. Hoje, a gente consegue ter os próprios comunitários sendo protagonistas dentro dessas estruturas”, afirma.

Alberta Pacheco — gestora do Núcleo

A formação de quem já atua na educação também faz parte desse processo. Moradora de Tumbira, a professora e gestora escolar Antônia Madalena Soares Rodrigues acompanha as atividades do núcleo desde 2019. Nesse período, participou de formações para professores das redes municipal e estadual, do Congresso da Juventude e de um encontro de secretários de Educação realizado no espaço.

Entre essas experiências, ela destaca a formação dos professores do ensino médio estadual e seus efeitos na rotina escolar. “Como gestora, senti uma mudança nas atitudes dos professores com relação à sala de aula, ao trato com os alunos. Houve um aprendizado bastante proveitoso, que se percebe na prática do dia a dia”, relata.

Antônia Madalena Soares Rodrigues — professora e gestora escolar

O Núcleo em 2026

516 Famílias atendidas
50% Participação feminina
60% Participação jovem
11 Comunidades contempladas
Registro fotográfico de atividades em Tumbira
Permanecer também é resistir

Uma educação ligada à identidade das comunidades

A experiência de Tumbira integra a proposta dos Núcleos de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável (NIEDS) da FAS. Esses espaços articulam educação, acesso à informação, conectividade, saúde, geração de renda e desenvolvimento comunitário, considerando as necessidades dos territórios.

Ao recordar a concepção dos núcleos, Ademar Cruz, coordenador de Articulação Institucional da FAS, destaca a preocupação com as condições de ensino e com a realidade das populações amazônicas. “Começamos a idealizar o que faltava para ter, de fato, uma educação de melhor qualidade e uma estrutura que desse ao professor condições de ministrar uma aula de qualidade. Também pensamos em uma educação que tivesse a identidade das comunidades e estivesse relacionada ao contexto da vida comunitária”, explica.

Ademar Cruz — coordenador de Articulação Institucional da FAS

Essa proposta envolve tanto o apoio à educação formal quanto atividades que ampliam as possibilidades de aprendizagem. Ao explicar o funcionamento educacional dos núcleos, Rafael Sales, coordenador de projetos na FAS destaca: “A educação nos núcleos é mediada. O Ensino Fundamental II e o Ensino Médio ofertados pelo Estado nas comunidades acontecem ao vivo, com um professor tutor dentro da sala de aula. A partir dessa estrutura, também desenvolvemos projetos complementares à educação formal, com formações em diferentes áreas”.

Rafael Sales — coordenador de projetos da FAS

Na avaliação de Antônia, os projetos oferecidos à comunidade escolar contribuem para desenvolver a leitura, a escrita e a criatividade dos estudantes. Essa formação também se conecta às experiências dos jovens fora da sala de aula, à valorização de suas histórias e à participação na vida comunitária.


Formações para a vida

Da comunicação comunitária aos espaços de decisão

A trajetória de Helena Garrido, de 19 anos, é uma das expressões desse envolvimento. Moradora de Tumbira, ela é ativista ambiental, participa de redes de juventude, atua como vice-coordenadora de uma delas e é conselheira do Mosaico do Baixo Rio Negro. Também trabalha com turismo de base familiar e moda e cursa Licenciatura em Ciências Biológicas.

Helena conta que suas primeiras mobilizações começaram na escola, por volta dos 10 anos. Depois, a participação em projetos apoiados pela FAS, como o Incenturita e o Repórter da Floresta, ajudou a desenvolver sua comunicação e seu interesse pelo trabalho com outros jovens.

O Incenturita foi uma das experiências que mais marcaram essa formação. Segundo ela, as atividades reuniam comunicação e arte, com cinema, criação de peças e participação de jovens das comunidades. “Comecei a ter os meus primeiros movimentos de fala, de oralidade, de diálogo, de formação. Isso foi uma das coisas que mais me incentivou a trabalhar com pessoas”, recorda.

Helena destaca ainda o incentivo dos professores, especialmente de Isolena Garrido, para que os estudantes participassem dos projetos. Entre 2019 e 2023, ela lembra de uma presença expressiva de jovens nas atividades, que ofereciam oportunidades para contar histórias e desenvolver a formação pessoal.

Nesse percurso, o núcleo funcionou como um espaço de encontro, aprendizagem e acesso à comunicação. A convivência com outros jovens ativistas também ampliou suas referências e sua vontade de atuar na área ambiental.

Em maio de 2024, essa trajetória a levou à sua primeira viagem internacional. Por indicação da FAS, Helena foi ao Vaticano para participar de uma cúpula sobre crise climática e resiliência climática. Segundo seu relato, teve a oportunidade de dialogar com 71 líderes globais e conhecer o Papa Francisco.

A saída da comunidade ocorreu em 13 de maio, aniversário de sua mãe, uma lembrança que tornou a experiência ainda mais especial. “O Núcleo me deu essa honra de poder representar a minha comunidade e os meus amigos”, afirma. Para ela, a participação no encontro fortaleceu seu envolvimento com a educação ambiental e com a representação de seu território.

Helena Garrido — moradora de Tumbira
Registro fotográfico de atividades em Tumbira

O turismo de base comunitária é uma das principais atividades econômicas de Tumbira, segundo Alberta. A gestora relata que moradores que antes trabalhavam com extração de madeira passaram a encontrar outras possibilidades de sustento, associadas à conservação da floresta.

Nessa atividade, a paisagem, os conhecimentos locais e a vida comunitária fazem parte da experiência oferecida aos visitantes. A floresta em pé passa a ser um elemento central do trabalho e da geração de renda.

Para Alberta, essa transformação aparece nas histórias dos empreendedores locais. “A gente tem histórias de comunitários que antigamente trabalhavam com a extração de madeira e viram a possibilidade de trabalhar com a floresta em pé. Hoje, temos empreendedores que utilizam o turismo para gerar a renda que antes vinha da extração de madeira”, relata.

Alberta Pacheco — gestora do Núcleo

A gestora associa esse movimento ao desenvolvimento da comunidade e à ampliação das oportunidades de formação e apoio ao empreendedorismo.

Para quem vive e trabalha no território, novas capacitações podem fortalecer esse caminho. Antônia aponta o inglês básico como uma possibilidade para melhorar a comunicação com os visitantes e defende que as atividades envolvam estudantes e suas famílias.

“O turismo é muito amplo, envolve muita coisa. Envolve cozinha, envolve os guias, envolve canoagem”, observa a professora. Para ela, as formações devem considerar como a atividade acontece na comunidade e alcançar também os pais e responsáveis que trabalham direta ou indiretamente no setor.

Helena compartilha essa percepção e acrescenta a importância de capacitações em audiovisual, que podem ajudar os jovens a divulgar seus empreendimentos. Ela também destaca oportunidades de formação relacionadas ao turismo de base familiar e à produção de ecojoias e biojoias, atividades presentes nas famílias da comunidade.

Na avaliação da jovem, esses conhecimentos podem ampliar as oportunidades de jovens e adultos, valorizando a cultura local e permitindo compartilhar experiências com outros territórios.

Além do turismo, o artesanato integra as atividades desenvolvidas em Tumbira, com o uso de materiais da floresta e a valorização dos conhecimentos locais.

Nas comunidades do entorno, a pesca também tem papel importante. Segundo Alberta, ela representa a principal fonte de renda de algumas localidades, evidenciando a diversidade de atividades produtivas na região.

Essa relação com os recursos naturais envolve a preocupação com sua continuidade. Para a gestora, gerar renda e conservar a floresta são responsabilidades que precisam caminhar juntas. “Ao mesmo tempo que a gente tira da natureza, também tem que conservar para que aquilo se mantenha para as próximas gerações”, afirma.

Alberta Pacheco — gestora do Núcleo

Uma atuação que chega às comunidades vizinhas

Embora esteja localizado em Tumbira, o Núcleo Agnello Bittencourt atende moradores de outras comunidades. Alberta cita, entre as localidades alcançadas, Inglês, Saracá, Carão, Terra Preta e comunidades do lago do Cajatuba.

Segundo ela, a reserva reúne 19 comunidades. As distâncias e as condições de deslocamento influenciam a organização das atividades, que são realizadas no núcleo e também estendidas a localidades próximas.

Essa atuação permite ampliar o acesso às iniciativas sem depender apenas da presença dos moradores na estrutura de Tumbira. De acordo com a gestora, as ações alcançam indiretamente as 19 comunidades da reserva.