Voluntário relata experiência no ‘Encanto do Saracá’ : FAS Amazônia
25/02/2012
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Voluntário relata experiência no ‘Encanto do Saracá’


Comunidade do Saracá. A palavra “comunidade” no inicio me deixou intrigado. Por que comunidade? Por que não vila? Aldeia? Localidade? Rapidamente fui percebendo o seu significado.
Uma pequena COMUNIDADE no coração da floresta da Amazônia plantada à beira do Rio Negro e povoada por gentes da floresta, por guardiões, habitantes, que se misturam na paisagem, que se confundem com as árvores, que se adaptam ao ritmo da natureza.
O objetivo era simples, fazer uma oficina sobre plano de negócios aplicado ao restaurante que estava a ser construído.
Mas o resultado foi bem mais complexo. Vim para ensinar, mas saí aprendendo.
Vivendo o seu dia-a-dia fui observando e experimentando esta realidade, nova para mim. Com vontade de absorver o máximo que pudesse, comecei a conhecer as pessoas, os seus costumes, tradições, trabalhos.
Desde carregar areia para fazer cimento para o restaurante, a buscar madeira e caminhar 30 minutos com 4 pedaços de madeira acabada de cortar da floresta, até fazer a farinha regional que tanto comi juntamente com os diversos peixes apanhados no dia e servidos num ambiente familiar.
Vivi por pouco tempo como um “caboco”, um amazonense da reserva do Rio Negro.
Duarte, ao centro, com comunitários do Saracá (FAS)
Entre brincadeiras, histórias e relatos, fui apreendendo parte da cultura da comunidade e me sentindo cada vez mais como pedaço dela.
O que levo é, sem duvida, este conceito de comunidade, de união, de força.
Levo a disponibilidade das pessoas que aqui vivem, quando era necessário carregar areia, buscar madeira.
Levo as horas a varrer o centro social, a limpar a mata, a dar as minhas oficinas,, eu e as restantes famílias da comunidade, cada um ajudando como podia, até os mais pequenos davam uma força.
Levo os finais de tarde onde toda a comunidade estava presente, para um momento de diversão, convívio, jogando futebol ou vôlei.
Levo aqueles momentos em que duvidei, que pensei que era impossível, como quando veio a caixa de água e era preciso pô-la no topo do reservatório mas que pensei que era grande de mais e o reservatório alto demais e seria muito difícil colocar a caixa sem a ajuda de um trator ou assim.
Só no tempo de virar as costas, quando olho de novo vi todas as pessoas da comunidade juntas, puxando duas grandes cordas e, ao fim de 30 minutos difíceis, a caixa está colocada e funcionando!
Levo também a garra e força de algumas pessoas da comunidade como a D.Raimunda ou Sr.Sebastião, que me ensinaram, que me mostraram que só através da nossa vontade, do nosso trabalho e do nosso QUERER inquestionável é que conseguimos alcançar o que desejamos.
Só através de uma luta incessante, de uma batalha quase sempre difícil alcançamos os nossos sonhos. Só arregaçando as mangas e botando tudo o que temos é que conseguimos atingir os nossos objetivos.
Valorizar mais a floresta em pé que derrubada é a mensagem da FAS, é a sua missão. Só agora, no final deste meu pequeno percurso entendo estas palavras.
Valorizar a floresta é valorizar as pessoas que vivem nela. Sem o suporte da FAS, sem a potencialização e alavancagem, pessoas como a D.Raimunda não chegariam tão longe.
Ã? preciso que organizações como a FAS trabalhem para e com as comunidades, as gentes da floresta. Ã? reconhecendo o seu valor, que as pessoas vão ter capacidade de crescimento, não apenas com melhor infraestrutura, ou condições de vida, mas um crescimento mais profundo, nas suas atitudes, nas suas oportunidades, na vida de cada um, contribuindo para uma melhoria na comunidade, uma melhoria na floresta, e no final uma melhoria no mundo.
Levo também toda a força que vejo das pessoas que trabalham criando as bases para tudo acontecer, seja da FAS, das próprias comunidades ou  de outras autoridades (governo, organizações, etc ;  todas as pessoas que fazem este sonho possível.
Verdadeiros guerreiros que batalham todos os dias para fazer acontecer. Pessoas que se entregam de coração, pelo bem dos outros.  Pessoas estas, que apesar de ter conhecido por pouco tempo, e outras que nem conheci, me mostraram que vale a pena. Que vale a pena as noites sem dormir, os relatórios, as reuniões, os conflitos, todos os problemas e obstáculos.
Que vale a pena ser guerreiro, porque guerra é guerra e no final só nos resta mesmo a consciência de que fizemos tudo o que podíamos ter feito, e que independentemente do resultado, lutamos até ao fim.
Foi uma grande oportunidade ter feito parte deste sonho e, sem dUvida, um enorme passo no meu crescimento profissional e, principalmente, pessoal.