Internet aliada ao conhecimento tradicional ajuda a construir o futuro em comunidades ribeirinhas : FAS Amazônia
25/09/2020
Notícias

Internet aliada ao conhecimento tradicional ajuda a construir o futuro em comunidades ribeirinhas


Foi em outubro 2019 que a comunidade Kambeba Três Unidos, localizada à margem do rio Cuieiras, na Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Negro, a 60 quilômetros de Manaus, recebeu internet via satélite por meio do projeto Conectividade Digital da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e da Americanas. O projeto, que disponibiliza o acesso à rede para 1.429 pessoas em oito dos nove núcleos da fundação espalhados pelo Amazonas, trouxe, em poucos meses,  mudanças para as vidas dos comunitários. Agora eles podem se comunicar, estudar, obter informações e se conectar com o mundo com mais facilidade e velocidade.

Um dos comunitários que vê com satisfação a transformação trazida pelo projeto é o professor de educação indígena, Mario dos Santos Cruz, de 31 anos. O educador descreve a vida antes da chegada da rede na localidade:

“Antes tínhamos sinal por telefone. Esse sinal saiu da comunidade e nossa saída foi a internet rural. Algumas famílias têm e outras não, mas é de forma paga e particular. A chegada da internet da FAS contribuiu muito para a gente aqui da comunidade no acesso à informação e à comunicação”, conta.

Esses elementos são essenciais na vida em comunidade, argumenta Mário. Professor na escola indígena Kanata T-Ykua (luz do saber, na língua Kambeba), Mário assume com seriedade seu papel dentro da Três Unidos. “O professor indígena precisa assumir uma posição política. Trabalho com o pessoal da saúde e da religião, na organização da comunidade. Além disso, contribuo no processo de reflexão e planejamento dos projetos da comunidade. Sou uma liderança, meu papel social é muito importante na comunidade como professor”, afirma.

E para melhor exercer esse papel, ferramentas como a internet são de grande importância para Mário e os demais moradores da Três Unidos. “É essencial hoje ter informação, participar e opinar e nisso a internet facilita muito”, diz o professor, que busca no acesso à rede se qualificar e encontrar novas formas de organizar os projetos da comunidade. 

 

Usando o NCS

O professor acessa a internet dentro do Núcleo de Conservação Sustentável (NCS) da FAS, na APA Rio Negro. A estrutura é formada por salas de aula, refeitório, biblioteca, alojamentos para alunos e professores e laboratório de informática. Essas estruturas integradas à floresta funcionam em parceria com a Americanas e outras instituições. É nela que Mário e outros comunitários utilizam a rede.

“Hoje estou fazendo um curso de arqueologia amazônica que requer internet. Sou estudante, vou no núcleo e lá tem uma boa velocidade para baixar vídeos e PDFs. Muitos cursos que não podíamos fazer porque a internet era bastante lenta para os que tinham, hoje já temos acesso”, revela o professor. 

“Temos estudantes fazendo faculdade a distância EAD e organização de trabalho de pesquisas. Isso ajuda muito para a melhor organização da comunidade e o acesso à informação”, acrescenta. 

A estrutura do NCS é elogiada por Mário. “A sala de mídia é bastante organizada, os computadores são de ótima qualidade e somos muito bem recebidos pelos gestores do núcleo. Para as pessoas que querem estudar, isso é muito valioso”, declara. 

O projeto Conectividade Digital também se revelou importante na divulgação dos atrativos da comunidade Três Unidos, que tem no turismo um dos seus pilares econômicos. “Como somos um ponto turístico, tem muitos trabalhadores de artesanato que divulgam seus trabalhos pela internet”, diz Mário.

Outro ponto em que o projeto da FAS e Americanas se mostrou essencial foi no acesso aos benefícios sociais, especialmente na pandemia do novo coronavírus. “Foi fundamental para fazer o cadastro das pessoas no auxílio emergencial, sem isso ia ficar muita família que precisa sem se cadastrar. Chegou na hora certa”, afirma o professor.

 

Expectativas

Como educador, Mário planeja utilizar a internet no ensino de seus alunos. “Trabalho com 20 alunos em turma do primeiro ao quinto ano, com faixa etária de sete a 11 anos. Com o processo de ensino intercultural, abordamos todas as disciplinas, além dos conhecimentos tradicionais: a língua kambeba, danças e músicas, grafismos, histórias orais e medicina tradicional. Também é implementado o ensino de direito constitucional, principalmente aqueles que falam sobre os povos indígenas: terra, saúde, educação, autonomia”, exemplifica.

O professor enxerga inúmeras possibilidades com o projeto Conectividade Digital para enriquecer a formação das crianças da Três Unidos. “Ainda não tivemos a oportunidade de disponibilizarmos a internet para os alunos de forma sistemática por causa da pandemia, mas há inúmeras possibilidades de incrementar o processo de ensino de nossas crianças. Já tivemos conversas com a gestão do núcleo e recebemos bastante apoio para sonhar esse futuro”, compartilha. 

Enquanto isso, Mário e tantos outros aproveitam os benefícios que o projeto trouxe para a vida na comunidade kambeba. “Espero que isso se fortaleça. O projeto hoje é um patrimônio para a comunidade”, finaliza o professor.

 

Sobre o projeto

A FAS possui nove núcleos espalhados pelo Amazonas. Atualmente, há cinco deles com acesso à internet, com o mais recente sendo instalado na RDS do Uatumã. Iniciado em 2018, o projeto de conectividade da FAS e Americanas já beneficia, diretamente 1.429 pessoas em oito dos nove núcleos da fundação espalhados pelo Amazonas.