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Ribeirinhos do Rio Solimões melhoram qualidade da produção da famosa farinha Uarini

Ribeirinhos do Rio Solimões melhoram qualidade da produção da famosa farinha Uarini
março 17, 2019 forner

Ribeirinhos do Rio Solimões melhoram qualidade da produção da famosa farinha Uarini

17/03/2019

A farinha do Uarini é um dos alimentos mais consumidos na mesa do amazonense há séculos. Seja acompanhando um peixe assado, uma carne ou até mesmo nos restaurantes mais conceituados, a iguaria é a cara do Amazonas. A produção da zona rural de Tefé-AM e Uarini-AM (521 e 565km de Manaus, respectivamente) vem ganhando força nos últimos anos, reunindo agricultores familiares que fazem a própria farinha para vender no mercado seguindo um padrão de qualidade digno de grandes fabricantes.
Repassar aos produtores o conhecimento de boas práticas para a produção foi o objetivo de capacitação realizada na comunidade São Francisco do Bauana, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá. Mais de 20 produtores locais se reuniram para entender como melhorar a produção, em um intercâmbio que mobilizou também indígenas da etnia Miranha.
A oficina foi uma ação de parceria do Instituto Mamirauá e da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), por meio do Edital Floresta em Pé, que tem recursos do Fundo Amazônia/BNDES. Os ribeirinhos puderam aprimorar regras de higienização, armazenamento e transporte, além da legislação que envolve a produção, com participação da Fundação em Vigilância em Saúde (FVS).
Já os indígenas Miranha contaram como ter mais eficiência na torra da farinha, reduzindo o consumo de lenha, além de técnicas para a redução do pó na farinha e da velocidade de produção, a partir de técnicas desenvolvidas durante décadas. As dicas repassadas pelos indígenas permitem uma farinha com qualidade diferenciada para o mercado, com grãos tipificados, crocância, além de segurança alimentar por adotar condições higiênicas de produção.
“A partir do momento em que se tem uma produção higiênica nesse processo, a segurança alimentar da farinha fica assegurada e o produto possui cada vez mais qualidade, agregando mais valor a essa produção que mantém a floresta em pé”, ressalta a coordenadora do Edital Floresta em Pé, Mickela Souza.

Selo de Identidade Geográfica

A oficina foi uma iniciativa da Associação de Produtores Agroextrativistas da Floresta Nacional de Tefé (APAFE), que tem por objetivo fornecer subsídios aos produtores rurais para a obtenção do selo Identidade Geográfica. Por meio dele, é possível reconhecer as áreas que fabricam a farinha de qualidade Uarini, popular no Amazonas. Como o próprio nome já diz, Uarini é um dos municípios que compõem essa lista, além de Maraã, Fonte Boa, Tefé e Alvarães, onde foi realizada a oficina.
O selo IG ganha importância porque atesta a qualidade do produto desde o momento do descascamento da mandioca até a etapa de torra sustentável da farinha. A APAFE tem o objetivo de fabricar pelo menos três tipos de farinha do uarini: a farinha filé, a farinha ovinha e a farinha ova, que podem até mudar de tamanho e crocância, mas não perdem o sabor característico do interior do Amazonas.
“Eles cumprem um padrão de qualidade que é diferenciado. Estes tipos de farinha têm um gosto diferente da farinha d’água e amarela, por exemplo. Os tamanhos dos grãos, atingidos nos processos de peneiração (pelos diferentes tamanhos da trama das peneiras) e embolagem da massa, são responsáveis por sua classificação. É um processo de produção característico. O selo IG representa que essa farinha tem valor agregado para ir ao mercado”, explica Mickela.

Vontade e sustentabilidade

A tecnologia social iniciada nas casas de farinha financiadas via Edital Floresta em Pé/FAS funcionou graças ao desejo dos produtores de ter seus produtos valorizados no mercado. A vontade, união e espírito sustentável foram os ingredientes que tornaram a farinha do Uarini não apenas uma tentativa desses empreendedores para obter renda, mas um resultado calculado.
Mickela explica que com a nova estrutura das casas de farinha – com estrutura diferenciada dos fornos que propiciaram a redução da quantidade de madeira para a torra da farinha – o tempo de preparação no processo de fornada caiu de 50 min a 1h para 30 a 40 minutos. “É a otimização dessa parte da produção”, afirmou.
A coordenadora destaca ainda a grande participação de mulheres na oficina. Para ela, a importância das empreendedoras é gigantesca visto a presença delas em todas as etapas da produção da farinha.
“Elas atuam desde o plantio até as fases de produção. Até mesmo no processo de comercialização junto aos atravessadores, por exemplo, a mulher vem, enquanto produtora, desempenhando um papel extremamente importante na cadeia de produção da farinha. Ela acaba fortalecendo a sua função  dentro das comunidades”.

Floresta em Pé

Em Tefé e Alvarães, quatro comunidades fazem parte do projeto desenvolvido pela APAFE: São Francisco do Bauana, São Francisco do Arraia, Tauary e Santo Antônio do Ipapucú. Os investimentos da FAS por meio deste projeto incluiu a construção de quatro casas de farinha com toda a estrutura higienizada, fornos de qualidade e materiais para prensa e preparo da massa da mandioca que será transformada em farinha. Outros 16 projetos de renda sustentáveis estão contemplados no Edital Floresta em Pé, totalizando um investimento de R$ 2,5 milhões do Fundo Amazônia/BNDES.
Iniciado em 2017 pela FAS, o edital recebeu 181 inscrições, avaliadas por um comitê independente que selecionou os projetos 17 aptos para receberem os aportes em torno de R$ 150 mil.
Os projetos estão chegando a um ano de vigência e após o investimento em infraestrutura passam a focar fortemente nos diversos processos produtivos que agregam e a trabalhar para o escoamento da produção.
A FAS continua com seu monitoramento e assessoria em gestão de projetos junto às organizações e, por meio de consultoria específica, vem a unir esforços para impulsionar a etapa de comercialização dos produtos e serviços frutos de cada iniciativa.