Artigo: O papel dos veículos de comunicação para atingir o Acordo de Paris: foco em 1,5ºC : FAS Amazônia
04/11/2016
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Artigo: O papel dos veículos de comunicação para atingir o Acordo de Paris: foco em 1,5ºC


Por Marina Souza

No século 19 o químico sueco Svante Arrhenius já concluía que a era industrial movida a carvão iria contribuir para o aumento do efeito estufa natural do planeta Terra. Mas só em 1975, o cientista americano Wallace Broecker emplacou o termo “aquecimento global” no domínio pUblico ao usá-lo no título de uma de suas pesquisas.  

Apesar de ser um fato pautado pela ciência há quase um século e pela ONU desde 1988, ano da criação do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), o tema ainda não é facilmente interpretado pela população em geral, em especial pelos mais afetados pelo fenômeno – os povos tradicionais e indígenas em situação de vulnerabilidade. Ã? mandatório que esta pauta esteja incorporada no nosso dia a dia, e se engana quem pensa que é uma preocupação somente do setor ambiental: é necessário inserir as mudanças climáticas em todas as agendas para criar uma nova matriz com foco no desenvolvimento sustentável.

Com o Acordo de Paris, assinado por 195 países na COP 21, líderes mundiais se comprometeram com o uso racional de recursos para manter o aquecimento global abaixo de 2ºC, ponto a partir do qual cientistas afirmam que o planeta estaria condenado à elevação do nível do mar, eventos climáticos extremos (como secas, tempestades e enchentes) e falta de água e alimentos. A meta principal é ambiciosa: limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC.  
O objetivo é que o Acordo passe a valer a partir de 2020, mas as mudanças climáticas globais já começaram a ser sentidas em diferentes partes do mundo. No Brasil, por exemplo, sofremos em 2014 com grandes cheias atípicas na Amazônia e na região sudeste, principalmente o estado de São Paulo, crise hídrica que secou reservatórios e fez a maior cidade do país reavaliar seu sistema de abastecimento e repensar seu consumo.
Para cumprir o Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a cortar as suas emissões em 37% até 2025, e em 43% até 2030, tendo como base o ano de 2005. O país se propôs ainda a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. No entanto, para que isto aconteça, é preciso também uma forte mobilização na sociedade – tanto para inserção de diferentes setores no debate quanto para conscientização da população sobre os efeitos das mudanças do clima. Por isso, os veículos de comunicação têm um papel importantíssimo: coberturas jornalísticas de qualidade e aprofundadas para fomentar o debate. Nós precisamos falar sobre mudanças climáticas. 
Dados apontam que o fenômeno já ganha mais espaço nos jornais brasileiros. A Folha de São Paulo, por exemplo, saltou de 129 notícias sobre o assunto, entre os anos 2000-2001, para 919 entre 2009-2010. No entanto, será que estamos comunicando o problema de maneira correta? Como os veículos podem tratar esta temática com mais liberdade editorial? 
De acordo com os dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG), que traz dados até 2015, a atividade agropecuária representa um total de 69% das emissões brasileiras. Em seguida, destaca-se o setor de energia, segunda maior fonte de emissões da economia brasileira. Uma das soluções está no investimento em energias renováveis, que poderiam pesar no bolso do consumidor e ser tratadas como pauta negativa nos jornais. Cabe a nós pensar: como deve ser a nossa abordagem ao tratar destes temas? Além disso, é impossível ignorar um fator: apesar de escritos por jornalistas, os jornais pertencem a empresários e, em sua maioria, dependem dos anUncios publicitários de corporações e interesses. Como garantir qualidade e imparcialidade na grande mídia? Ã? difícil dizer mas “não existe almoço grátis”, como dizem os norte-americanos.
Especialistas apontam ainda que o crescimento das emissões brasileiras está também relacionado ao desmatamento na Amazônia, que aumentou 24% entre 2014 e 2015 de acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Mas nós, jornalistas, damos pouquíssimo destaque às florestas – nosso principal tesouro e aliado no combate às mudanças climáticas.
Outro fator que deve ser mencionado é a forte crise que atingiu os veículos de comunicação de massa, marcada pelos chamados “passaralhos”, demissões em massa que fecharam dezenas de veículos e editorias pelos jornais no Brasil. O Amazonas, por exemplo, estado com maior área de floresta amazônica conservada, não tem, atualmente, em nenhum dos seus três principais jornais impressos uma editoria específica de meio ambiente e sustentabilidade. A agenda socioambiental deixou de ser prioridade nos veículos de comunicação de massa, ficando reservada no máximo aos cadernos especiais de domingo e a notícias sobre lançamentos de relatórios científicos, que não bem contextualizadas acabam por não causar interesse no leitor leigo sobre o tema.
Na contramão das tendências da mídia tradicional, é preciso destacar o importante papel desempenhado por novas plataformas de comunicação. Com as demissões em massa, surgem cada vez mais iniciativas do chamado “jornalismo independente”, que ganham espaço tratando, de maneira crítica e científica, de temas que poderiam ser barrados pelos donos de jornais ou engolidas pelos factuais no ritmo frenético das redações. Somente na área socioambiental e de direitos e desenvolvimento humano podemos citar alguns como Envolverde, O Eco, Amazônia Real, Jornalistas Livres, Agência PUblica, Ponte, InfoAmazônia, e Conexão Planeta. 
Estes veículos, que apostam na democratização da informação, aliados do ciberativismo, têm um potencial real de fomentar o debate sobre mudanças climáticas. Cabe a nós, jornalistas e ativistas, abraçar estes meios de comunicação como aliados na luta pelo esclarecimento da sociedade e para pressionar nossos líderes e tomadores de decisão. Devemos apoiá-los com o acesso a informações técnico-científicas, que muitas vezes ficam trancadas em laboratórios de centros de pesquisa, facilitando a participação nas coberturas voltadas para o desenvolvimento sustentável e cumprimento do Acordo de Paris. Devemos colocar em pauta não só orçamentos para medidas de combate à mitigação e adaptação do clima, mas também para a comunicação destas ações. Quem sabe assim a população tenha mais chances de entender efetivamente os efeitos das mudanças climáticas e se unir a cientistas e a ativistas: temos que ficar abaixo de 1,5ºC.