Davos e uma nova visão para a agricultura - FAS Amazônia : FAS Amazônia
09/03/2010
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Davos e uma nova visão para a agricultura


Virgílio Viana (1) e Luiz Fernando Furlan (2)

O encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na última semana de janeiro de 2010, teve como tema geral “repensar, redesenhar e reconstruir”.  A motivação que orientou este foco foram as crises financeira, econômica, social e ambiental que marcaram o final da primeira década deste século.

Um dos temas que recebeu grande atenção foi “uma nova visão para a agricultura”.  Foram várias sessões de discussão, envolvendo os presidentes das principais empresas de alimentos e insumos do mundo e alguns presidentes, ministros, chefes de organismos internacionais, lideranças de vários segmentos e especialistas convidados. As sessões tiveram um formato  bastante interativo, em pequenos grupos de trabalho. A proposta era repensar os paradigmas atuais e propor novos caminhos diante dos desafios vindouros.

Para atender à demanda de uma população global crescente, que em 2050 atingirá 9,2 bilhões de pessoas, a produção de alimentos deve aumentar em 50%.  Por outro lado, é preocupante a escassez de recursos naturais, especialmente água. Soma-se a isso a crescente degradação ambiental decorrente da erosão dos solos, poluição, contaminação por agroquímicos, desmatamento e perda da biodiversidade. Para aumentar o desafio, estamos em um processo de mudanças do clima, com o aumento da freqüência de eventos extremos, como vendavais, secas e enchentes.

A agricultura participa com 3 a 6% do PIB global, mas é a principal fonte de renda para mais de 65% da camada mais pobre da população mundial. Portanto, a agricultura tem um papel importante para a redução da pobreza rural. Por outro lado, a produção de alimentos é essencial para a população urbana, que hoje responde por aproximadamente 50% da população global, de 6,9 bilhões de habitantes. Como aumentar a produção de alimentos e melhorar a qualidade nutricional da população? Como combinar isto com a redução da pobreza, a conservação dos mananciais de água e o estancamento da degradação ambiental?  Não são desafios simples. Porém, são essenciais e urgentes.

Algumas estratégias gerais puderam ser delineadas em Davos. Primeiro, o aumento da produção de alimentos deve ser baseado em ganhos de produtividade e redução das perdas pós-colheita. As perdas pós-colheita alcançam a cifra global de 50% e podem ser drasticamente diminuídas.  A produtividade na África pode ser aumentada em até 4 vezes, apenas com o uso de tecnologias já disponíveis e testadas. Entretanto, o aumento da produção não deve estar baseado no aumento da área desmatada. A conversão de áreas de florestas, cerrado e outros ecossistemas naturais em agricultura deve ser reduzida a zero no mais curto espaço de tempo possível.

Segundo, devem ser criados instrumentos financeiros para internalizar os custos dos serviços ambientais. Isto significa que as áreas de florestas e outros ecossistemas naturais devem receber pagamentos pelos serviços que prestam – armazenamento e seqüestro de carbono, conservação da biodiversidade, conservação dos mananciais de água etc. Uma das oportunidades mais promissoras é a valorização do carbono florestal por meio do chamado REDD+ (redução de emissões por desmatamento e degradação, mais conservação, manejo e enriquecimento florestal). Outro caminho é a redução das emissões de gases efeito estufa nas cadeias produtivas de alimentos.

Terceiro, devem ser ampliados os investimentos em ciência e tecnologia, com o objetivo de redesenhar os sistemas de produção agropecuária. Isto significa não apenas aprimorar as bases tradicionais da revolução verde – melhoramento genético, adubação, irrigação e manejo de pragas e doenças. Deve ser dada ênfase para sistemas de produção mais eficientes ecologicamente e capazes de conservar os solos, seqüestrar carbono e conservar a biodiversidade – além de produzir alimentos de melhor qualidade (menos agroquímicos) e baixo custo. Exemplos disso são sistemas agroflorestais e permacultura.

Quarto, deve ser aprimorado o sistema de logística e comércio de alimentos. É necessário reduzir custos e perdas. Isto envolve investimentos em infra-estrutura de transporte e armazenamento. Por outro lado, são necessárias práticas de comércio mais justas e solidárias, incluindo a redução de barreiras e subsídios, concluindo a Rodada de Doha na OMC.

Para que estas estratégias tenham sucesso é necessária a formulação de políticas públicas inovadoras e investimentos privados arrojados. Não é mais possível manter a trajetória atual da agricultura no mundo: não é sustentável.  A boa notícia é que existe uma compreensão cada vez mais clara dos desafios por parte de expressivas lideranças internacionais. Repensar, redesenhar e reconstruir a agricultura do século 21 deve ser uma prioridade de todos.

O Brasil é uma potência agrícola e ambiental, que tem um papel estratégico no cenário global do século 21. Entretanto, se observarmos os debates de 2009 no Congresso Nacional envolvendo agricultura e meio ambiente, o quadro é desanimador. Os embates de agricultura x conservação ambiental, desenvolvimento x sustentabilidade, são anacrônicos e ultrapassados. O debate deve ser sobre como repensar a agricultura para que esta seja redesenhada diante dos novos desafios deste século. Devemos construir um processo de alinhamento de intenções em torno de uma visão estratégica de sustentabilidade. Ao inserirmos a dimensão ambiental como um dos objetivos da agricultura, não estaremos perdendo competitividade internacional. Ao contrário, ao nos alinharmos com o pensamento estratégico global, aumentaremos nossa competitividade, pois teremos mais oportunidades de acesso aos mercados ao reduzir o risco de barreiras comerciais.

O Brasil deve internalizar este debate com urgência. O recente posicionamento do Brasil na COP15 em Copenhagen indica uma mudança estratégica importante. Devemos deixar de lado o embate infrutífero e partir para um debate inteligente entre ruralistas e ambientalistas. Devemos repensar a agricultura, criando uma visão capaz de agregar convergências entre o aumento da produtividade e a melhoria ambiental e o combate à pobreza. A partir disso, delinear planos de curto, médio e longo prazos, envolvendo todos os segmentos da sociedade relacionados com a questão.  O debate presidencial é uma boa oportunidade para catalisar este processo.

[1] – Ph.D. pela Universidade de Harvard e Superintendente Geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS)

[2] – Presidente do Conselho de Administração da FAS  e Co-Presidente do Conselho de Administração da BrasilFoods