As ambulâncias fluviais da Amazônia e os ribeirinhos que correm contra o tempo - FAS Amazônia : FAS Amazônia
16/02/2021
Reportagens

As ambulâncias fluviais da Amazônia e os ribeirinhos que correm contra o tempo


Nos centros urbanos, o som das sirenes de ambulâncias ressoa pelas ruas, casas e apartamentos, como um alerta para que condutores respeitem o código de trânsito e abram caminho. Em situações de emergência, os profissionais que desafiam tempo e espaço para salvar vidas ainda precisam lidar com obstáculos como desrespeito por parte de motoristas, engarrafamentos e ruas esburacadas. Mesmo com tantos problemas, não é nenhuma novidade que as ambulâncias fornecem um sistema organizado de cuidados imediatos e eficazes. Entretanto, para quem vive às margens de um rio no coração da Floresta Amazônica e utiliza a extensão das águas como vias de transporte, a figura das ambulâncias é substituída e, em seu lugar, surgem as chamadas “ambulanchas” – veículos fluviais voltados para o atendimento emergencial em comunidades ribeirinhas.

Ao contrário dos meios de transporte urbanos, quem utiliza uma ambulancha se depara com outras situações. No trajeto do rio até a cidade mais próxima, a natureza fala mais alto: bancos de areia, fortes banzeiros – ondas que se formam nos rios -, tempestades e até a própria época do ano influenciam no trajeto, já que em tempos de seca algumas partes do rio podem ficar totalmente inacessíveis por barco. No interior do Amazonas, ribeirinhos situados em regiões remotas já dispõem desse tipo de serviço fluvial de saúde, principalmente graças à uma parceria entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Embaixada da França, que adquiriram, entre os meses de julho e outubro, oito ambulanchas para atender dezenas de comunidades localizadas em quatro Unidades de Conservação (UCs): Área de Preservação Ambiental (APA) do Rio Negro, Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, RDS Puranga Conquista e RDS do Piranha.

Logística para entrega de ambulanchas e canoas para agentes de saúde realizada pela equipe da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).(Foto: Samara Souza)

 

O contexto da Covid-19 foi o que impulsionou ações voltadas exclusivamente para a saúde ribeirinha. Vale lembrar que o Amazonas enfrentou no segundo trimestre de 2020 uma situação de calamidade e colapso do sistema de saúde na pandemia, que chegou primeiro à capital e se disseminou para o interior do estado. Durante o pico de contágio, a FAS se mobilizou para articular estratégias de combate e de minimização dos impactos do vírus nas comunidades, até se consolidar em uma ação conjunta: a “Aliança dos povos indígenas e populações tradicionais e organizações parceiras do Amazonas para o enfrentamento do coronavírus”, ou simplesmente, “Aliança Covid-Amazonas”. A iniciativa já reuniu 112 parceiros – entre instituições, governos, empresas, organizações da sociedade civil, universidades e outros.

A questão logística tomou protagonismo depois de considerarem as inúmeras dificuldades de deslocamento nas comunidades, levando em conta não apenas os sinais da natureza, mas a falta de uma infraestrutura e comunicação adequadas. Dentre as várias ações previstas na Aliança, uma delas está ligada ao transporte de emergência. A Embaixada da França tem sido uma das principais parceiras, principalmente no que tangem as doações das ambulanchas – além de outros produtos voltados à ação de combate ao vírus, como equipamentos e aparelhos médicos, kits de higiene, combustível emergencial e canoas com motor rabeta, doadas especialmente para agentes comunitários e indígenas de saúde que atuam na região.

 

(Foto: Bruno Kelly)

 

Segundo a Superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da Fundação, Valcléia Solidade, “as ambulanchas têm um papel essencial nesse contexto, porque o acesso é difícil em muitas dessas comunidades e elas precisam de um transporte adequado para que o paciente chegue mais rápido ao centro urbano mais próximo. É também uma estratégia para minimizar os impactos da Covid e atender situações comuns que ocorrem nesses territórios, como partos, picadas de insetos e animais peçonhentos ou até acidentes domésticos”.

 

Ambulancha

O que é?
Veículo fluvial equipado para o transporte ou prestação de primeiros socorros a doentes e feridos.

Quem pode ir dentro do veículo?
Um “piloteiro”, um médico – se disponível -, um enfermeiro e/ou técnico de enfermagem e um paciente, além da possibilidade de um acompanhante durante o transporte.

Qual a velocidade máxima da ambulancha (motor 40 HP)?
Até 53 km/h.

Quais são os desafios e obstáculos no caminho?
Fortes tempestades e “banzeiro”, bancos de areia que podem fazer com que a lancha encalhe e falta de sinal para dispositivos móveis durante o caminho – o que impossibilita a comunicação com hospitais.

Para onde vai após resgatar o paciente?
Ao hospital ou UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do centro urbano mais próximo.

Ambulância

O que é?
Veículo terrestre equipado para o transporte ou prestação de primeiros socorros a doentes e feridos.

Quem pode ir dentro do veículo?
Um socorrista que dirige, um médico, um enfermeiro e um paciente, além da possibilidade de um acompanhante durante o transporte.

Qual a velocidade máxima da ambulância?
Até 90 km/h.

Quais são os desafios e obstáculos no caminho?
Trânsito intenso, ruas esburacadas, falta de sinalização, infrações e desrespeito por parte de condutores, além da própria corrida contra o tempo para salvar vidas.

Para onde vai após resgatar o paciente?
Ao hospital ou UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais próximos da cidade.

(Foto: Bruno Kelly)

Corrida contra o tempo

Para quem mora a várias horas ou até mesmo dias de distância da cidade mais próxima, o tempo se torna um fator crucial. No que diz respeito ao acesso à saúde no Amazonas, comunidades ribeirinhas do interior muitas vezes dispõem do fator basilar das longas distâncias, mas também de serviços de saúde em condições precárias. Algumas, por exemplo, têm respaldo do chamado SAMU Fluvial, que funciona em regime de plantão 24 horas, mas que fica localizado em área urbana, o que limita o acesso e a comunicação. Além disso, o tempo médio para transferir pacientes de uma comunidade remota para o hospital municipal mais próximo é de seis horas, podendo chegar a mais de dois dias.

As comunidades ainda enfrentam problemas como falta de energia elétrica e de saneamento básico, além de sinal de telefonia móvel e internet limitados, sendo que algumas nem mesmo têm acesso a esses serviços. Outras não dispõem de postos de saúde e, quando têm, os locais carecem de profissionais e de medicamentos essenciais. Durante a pandemia, a maioria das comunidades no Amazonas também foi atingida, acometendo pessoas de forma fatal em locais remotos, o que fragilizou ainda mais a situação na Amazônia profunda.

O morador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, Daniel Araújo, presidente do Fórum Permanente em Defesa das Comunidades Ribeirinhas (FOPEC), afirma que as ambulanchas chegam em boa hora, visto que a precariedade da saúde nas comunidades é um retrato da realidade local, mesmo antes da Covid-19. “Quando temos que deslocar um paciente, a gente precisa unir forças, mobilizar a comunidade inteira para tentar um bote rápido e buscar gasolina de um e de outro para operacionalizar o transporte. Isso muitas vezes sem sinal de celular ou internet. E se não houvesse essa força-tarefa, a pessoa teria que desembolsar em torno de R$ 300 de combustível só para sair da comunidade e chegar a tempo para o atendimento”.

(Foto: Samara Souza)

 

Ser presidente da Associação-Mãe da RDS Puranga Conquista, cujo cargo é atualmente exercido por Raimundo Leite de Souza – o Raimundinho -, também significa enfrentar situações desesperadoras e, ao mesmo tempo, esperançosas quando o assunto é atendimento emergencial. Raimundinho conta que, ao se aventurar nas águas auxiliando no transporte de pacientes, já presenciou tanto a morte quanto o nascimento de crianças. “Há dois anos eu tive que transportar uma mulher grávida e, quando estávamos chegando em Manaus, eu acabei tendo que auxiliar no parto, mas graças a Deus deu tudo certo. Nós tivemos um caso recente também, durante a pandemia, em que uma criança passou mal e acabou falecendo de AVC, então aquilo foi muito difícil para mim, me senti mal por não ter conseguido socorrê-lo a tempo”. Raimundo concorda que se não fosse a união de forças entre os “comunitários” – pessoas que vivem em comunidades ribeirinhas -, a situação teria sido ainda mais difícil.

Maior conforto e segurança

Na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Manoel Raimundo Marques Neto, o seu Manoel, conhece o peso da responsabilidade em pilotar uma ambulancha. Ele já ficou encarregado por pilotar uma das primeiras ambulancha adquirida há alguns anos pela comunidade, mas que acabou quebrando com o uso e, agora, foi substituída pela nova doação. Manoel recorda situações em que passou nos seus tempos como “piloteiro”: “A mais difícil foi em uma viagem que pegamos um temporal enorme e eu não conseguia controlar direito a ambulancha. As pessoas gritavam, desesperadas, e eu tinha que dizer para manterem a calma, porque só eu sabia pilotar. O banzeiro estava muito forte, tive que reduzir a velocidade da lancha para chegar até a margem. Foi difícil, fiquei com medo, mas consegui”.

Agora, com a aquisição das ambulanchas, quem precisar de socorro terá maior tranquilidade. Com um motor de 40 HP, a ambulancha tem proporcionado aos moradores maior velocidade e, portanto, menor tempo de deslocamento para os pacientes que necessitem do atendimento. A um custo aproximado de R$ 55 mil, a ambulancha ainda vem equipada com uma maca de material resistente e mais quatro assentos, destinados aos acompanhantes e ao motorista. Além disso, há um rádio acoplado ao lado do motorista, o que garante maior segurança para evitar situações como a passada por seu Manoel. Em tempos de chuva, a ambulancha também conta com lonas que são fixadas nas laterais do veículo.

 

(Foto: Samara Souza)

 

Para Raimundinho, o novo meio de transporte é diferente dos que estavam acostumados, por ser mais completa e bem equipada para o serviço. “A ambulancha que nós recebemos proporciona um conforto bem maior, é grande e espaçosa, tem uma maca e uma estrutura de comunicação via rádio que vai facilitar muito o socorro. Antes, o paciente era transportado sentado, em uma posição muito ruim, tendo que enfrentar o rio com muito banzeiro, o que é complicado, porque poderia até agravar o estado de saúde do paciente”.

Ao contrário dos agentes comunitários de saúde, somente técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos podem acompanhar os pacientes nas ambulanchas, além dos familiares mais próximos. A ACS Líria Santos da Silva, da comunidade 15 de Setembro, situada na RDS do Rio Negro, concorda que a ambulancha deverá facilitar a vida de quem precisar acompanhá-los. “Acho que vai ser melhor para o paciente e para o acompanhante, que vai poder ficar mais tranquilo. Vai ser também muito mais rápido do que a gente usar um rabeta para chegar, porque antes poderia demorar até o dobro do tempo”.

Critérios e cuidados

As ambulanchas, canoas e kits doados são de inteira responsabilidade das associações de moradores das Unidades de Conservação para os quais foram destinados, como lembra Adamilton Bindá, coordenador da Regional Rio Negro, uma das áreas de atuação da FAS. No caso das ambulanchas, ele explica que a Fundação levou em conta critérios como segurança e localização. “Em algumas comunidades, há relatos de casos de furto e sabemos que é fácil roubar as ambulanchas e os motores, então tivemos que ter cuidado com isso e escolher bem os locais mais seguros para a entrega”.

O alto valor das ambulanchas é um dos motivos para que houvesse uma orientação em forma de oficina em cada comunidade no sentido de cuidar do novo patrimônio, evitando possíveis estragos em peças decorrentes de mau uso ou falta de manutenção. Segundo Adamilton, “as ambulanchas são ferramentas que vão auxiliar muito os serviços de saúde, mas cada comunidade precisa se conscientizar que é um bem coletivo e zelar por ele, porque se a gente voltar e ver que houve mau uso ou descaso, vamos ter que remanejar a lancha para outra comunidade”.

(Foto: Samara Souza)

 

As associações de moradores das unidades de conservação estão em processo de discussão sobre quem irá ficar responsável por pilotar as ambulanchas. Em princípio, o trabalho deverá ser voluntário, mas para o presidente da Associação das Comunidades Sustentáveis (ACS) do Rio Negro, Viceli Costa, o ideal é que, eventualmente, as comunidades se articulem para conseguir um funcionário remunerado por conta própria. “Fazer um trabalho voluntário pode não ser a melhor opção a longo prazo, porque a pessoa corre o risco de ser culpabilizada caso aconteça algo com a lancha. Mas para isso a Reserva e a comunidade precisam se unir e encontrar a melhor solução”.

 

(Foto: Samara Souza)

 

Solenidade

A entrega dos equipamentos foi marcada por um evento ocorrido na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na RDS do Rio Negro, e contou com a presença da população e da superintendência da FAS, além de representantes da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) e da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa). Lá, os comunitários também foram orientados sobre como deverão proceder para se articular junto às associações das unidades de conservação sobre os cuidados e responsabilidades com as ambulanchas.

De acordo com o superintendente-geral da FAS, Virgilio Viana, a “Aliança dos povos indígenas e populações tradicionais e organizações parceiras do Amazonas para o enfrentamento do coronavírus” faz parte de uma estratégia mais ampla da própria instituição voltada à saúde pública, que envolve não apenas a entrega de ambulanchas e aparelhos médicos, mas ações voltadas para telessaúde e formação de agentes comunitárias. “A partir da metodologia da FAS de trabalho participativo, ouvimos as comunidades e desenharmos projetos que pudessem atender a essa demanda. Nós compomos uma estratégia bem completa de atendimento à saúde que complementa e fortalece as iniciativas feitas pelas secretarias de saúde. Com isso, nosso maior objetivo é justamente ampliar, fortalecer e ‘amazonizar’ o SUS”.

 

 

Área de Preservação Ambiental (APA) do Rio Negro

Três Unido, São Sebastião, Maravilha, Costa do Ubim, Nova Jerusalém, São Thomé, Santa Isabel, Monte Sinai do Igarapé Açú, Nova Aliança Apuau, Nova Canaã do Aruaú, Nova Esperança do Apuau.

 

Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro

Tiririca, Santo Antônio, Marajá, Camarão, Terra Preta, Nova Esperança, Camará, Tumbira, Sacará, Inglês, São Thomé, Santo Antônio do Tiririca, Bujaru, Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, Fatima, 15 de Setembro, Nossa Senhora da Conceição, Terra Santa e Nova Aliança.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Puranga Conquista
Caioé, Baixote, Arara, Bela Vista do Jaraqui, Tatulandia, Santa Maria, Terra Preta, Chita, Pagodão, Solimõezinho, Barreirinha, Nova Esperança, Nova Canaã.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Piranha
Betel e Braga
Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã
Maracarana e Jacarequara