Resultados positivos mantêm acesa a esperança, mas não autorizam otimismo ingênuo
Passado o turbilhão da COP30, é hora de fazer um balanço equilibrado deste evento histórico. Na minha avaliação, a conferência entregou mais do que se esperava, especialmente diante do contexto político e econômico global.
Como veterano de COPs (participei de outras 24), aprendi a calibrar minhas expectativas. O processo de tomada de decisões por consenso limita a aprovação de decisões disruptivas e ousadas, mesmo que sejam recomendadas pela ciência. O contexto geopolítico afeta de maneira relevante a disposição ao entendimento entre as partes, com guerras e extremismos criando um contexto muito desfavorável na atualidade.
A complexidade das mudanças necessárias para uma economia de baixo carbono é gigantesca e afeta diretamente muitos interesses de países e setores da economia. A humanidade como um todo tem muito a ganhar, mas alguns setores podem perder e é natural que se oponham a mudanças que lhes são prejudiciais. Tudo isso tem que ser ponderado na análise dos resultados de uma COP. Infelizmente não se trata de um evento que ocorre de forma apartada da realidade geopolítica e econômica global.
Apesar dessas limitações, a COP30 pode ser considerada um grande sucesso. O principal resultado foi manter acesa a chama da esperança, quando havia risco real de fracasso diante de pressões de alguns países e da indústria de combustíveis fósseis. Foram aprovados, por consenso, 29 documentos oficiais em áreas-chave, incluindo financiamento climático, transição justa, tecnologia e adaptação. Isso está aquém do necessário segundo a ciência, mas representa avanço.
A diplomacia brasileira demonstrou competência e profissionalismo. O Governo do Brasil exerceu liderança política, preservando o multilateralismo como a melhor via para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras nacionais. Merece elogio, em especial, a decisão de conduzir em 2026 a elaboração de um “mapa do caminho” para acelerar a redução do uso de combustíveis fósseis e avançar no fim do desmatamento em todos os biomas, com atenção às florestas tropicais.
A COP30 foi um grande sucesso ao ser realizada em Belém. A capital do Pará superou seus principais desafios e venceu uma enorme barreira de preconceitos, tanto dentro quanto fora do Brasil. Belém estava linda e vibrante, com todo o esplendor da cultura e gastronomia amazônica. A logística de credenciamento e segurança foi muito superior à média das COPs. Comparada à estrutura da CO15, realizada em Copenhague, na Dinamarca, por exemplo, Belém venceu por 7 x 1!
O calor que muitos países frios reclamaram foi um fator positivo do ponto de vista psicológico. Muito mais apropriado discutir o aquecimento global em Belém do que na gélida Poznan na Polônia (COP14 em 2008) ou Bonn, na Alemanha (COP23 em 2017). Muito melhor pensar em soluções baseadas na natureza no meio da Amazônia do que nas condições desérticas de Dubai (COP28 em 2023).
O legado da COP foi espetacular para Belém. Os investimentos feitos pelos governos Federal, do Pará e de Belém, somado aos investimentos de empresas, de organizações da sociedade civil e cooperação internacional permitiram a Belém dar um salto quântico. A cidade ganhou novos espaços de eventos e mostrou ao mundo a riqueza da sua cultura, gastronomia e hotelaria. Instituições como a Embrapa fizeram as vitrines da COP ganharem vida e concretude, mostrando que existem caminhos viáveis. Mostraram que o Brasil é um país que tem liderança global em soluções baseadas na natureza. Merecem destaque os resultados apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente com os dados de redução do desmatamento na Amazônia. O Fundo Florestas para Sempre, apresentado pelo Brasil, criou um mecanismo para que governos e empresas de diferentes países se juntem na proteção dos ecossistemas naturais de todo o planeta.
A participação social foi outro marco. A presença de povos indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos e comunidades locais deu densidade política e moral às negociações e resgatou o espírito da Rio-92: não há agenda climática legítima sem a voz de quem vive e protege os territórios.
No conteúdo, três frentes merecem destaque. A primeira é a construção de passos iniciais rumo à interoperabilidade dos mercados de carbono. Não se trata de panaceia, mas de um instrumento que pode mobilizar recursos em escala para a justiça climática, especialmente para povos da floresta e populações vulneráveis.
A segunda é a elevação da agenda de adaptação. O agravamento dos eventos extremos empurrou o tema para o centro. O Conselho de Adaptação da presidência da COP30 estimou que promover adaptação climática para povos da floresta na Amazônia demanda cerca de 4 bilhões de dólares, algo em torno de 4% do orçamento do Plano Safra no Brasil. É um número que evidencia viabilidade, desde que haja prioridade política e mecanismos financeiros adequados, como trocas de dívida por investimento.
A terceira é a transição energética. É digno de nota o destaque dado ao avanço das renováveis: hoje, mais de 90% do aumento da geração de energia ocorre com fontes renováveis, sobretudo solar e eólica. O investimento privado tem acelerado essa virada, e países como Brasil e China mostram que políticas públicas bem desenhadas podem turbinar essa metamorfose.
A COP30 também reforçou a liderança do Brasil no Sul Global e abriu uma janela de ação até o final de 2026, quando se encerra a presidência brasileira. Há uma oportunidade concreta de transformar processos em entregas: fortalecer mercados de carbono, reduzir desmatamento, avançar no roteiro de combustíveis fósseis e ampliar o financiamento da adaptação.
Esses sucessos mantêm acesa a esperança, mas não autorizam otimismo ingênuo. A ciência aponta cenários duros, com extremos mais frequentes e intensos. Realisticamente, temos duas opções: seguir a trajetória atual rumo a um futuro trágico ou promover mudanças profundas para construir um futuro menos ruim e mais administrável.
Consideradas as limitações do contexto, a COP30 foi bem-sucedida ao manter o sistema em movimento e apontar caminhos. Agora, cabe focar no que realmente importa: resultados concretos. Precisamos deixar de lado a problemologia para fortalecer a solucionologia. Menos liturgia e mais “fazimentos”. Existem soluções simples e viáveis ao nosso alcance para mitigar, adaptar e proteger vidas e o pós-COP é o tempo de implementá-las.



