A agenda das espécies migratórias nos traz uma mensagem simples e clara: estamos todos interligados e fazemos parte do mesmo planeta
Em 2026, o Brasil volta a estar no centro do debate ambiental global, não apenas pelo legado da COP30, em Belém, mas também por sediar, pela primeira vez, a COP da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), em Campo Grande (MS), tendo a região do Pantanal como referência simbólica e territorial desse encontro. Esse duplo contexto ajuda a lembrar uma ideia essencial: a biodiversidade não é estática — ela é rede, fluxo e interdependência.
Quando olhamos para a biodiversidade, os números impressionam. O Brasil detém cerca de 13% de toda a biodiversidade global. Na Amazônia, um relatório recente da Academia Brasileira de Ciências estima aproximadamente 40 mil espécies de plantas na região e aponta a presença de mais de 2,5 milhões de espécies de insetos. Já no Pantanal, uma síntese técnico-científica publicada pela Embrapa descreve uma diversidade igualmente notável, com mais de 2.000 espécies de plantas, além de centenas de espécies de aves, mamíferos e peixes, também com sub-registro em vários grupos. Em outras palavras: Amazônia e Pantanal são bibliotecas vivas. É importante observar que números são conservadores: muitas espécies nem foram ainda descritas.
É nesse ponto que a COP15 de Espécies Migratórias entra como uma agenda importante para o futuro de ecossistemas estratégicos como a Amazônia e o Pantanal. Animais migratórios conectam esses biomas e migram entre os diversos países que os compõem. As migrações asseguram áreas de reprodução, descanso e alimentação ao longo de rotas que atravessam florestas, savanas, rios e zonas úmidas.
A COP15 da CMS, mobiliza o Brasil e o mundo em torno de uma agenda que, no fundo, é a mesma: manter a conectividade dos ecossistemas e habitats, reduzindo pressões humanas que interrompem esses ciclos. Isso é essencial para manter serviços ecossistêmicos essenciais, incluindo o regime de chuvas, a polinização das frutas e o combate biológico a pragas e doenças.
Esses serviços ecossistêmicos, porém, estão sob pressão. O desmatamento e a fragmentação levaram tanto a Amazônia quanto o Pantanal e demais biomas brasileiros a níveis próximos ao colapso ecológico. Felizmente, há sinais positivos nos dados oficiais de desmatamento dos últimos anos: os dados do PRODES/INPE mostram uma melhora clara na Amazônia Legal: somando as taxas anuais, o desmatamento caiu de 35.483 km² no triênio 2020–2022 para 21.378 km² no triênio 2023–2025 (2025 ainda é estimativa), uma redução de cerca de 40%. A queda foi significativa e precisa continuar. Mas ela não elimina o risco, porque o problema é acumulativo: desmatamento, degradação florestal, fogo e aquecimento global atuam juntos, enfraquecendo a capacidade dos ecossistemas de se regenerar.
Pesquisas cientificas têm apontado o risco iminente de que Amazônia e Pantanal possam perder resiliência mais rápido do que imaginamos quando desmatamento e extremos climáticos se somam. Para a Amazônia, um estudo na Nature (2024) descreve o risco de “transições críticas” impulsionadas por aquecimento, secas, desmatamento e fogo. No Pantanal, o alerta aparece na prática: em 2024, o fogo consumiu cerca de 1,9 milhão de hectares no bioma, enquanto na Amazônia foram 17,9 milhões de hectares — um tipo de choque que fragiliza as migrações de animais e aumenta a chance de novos ciclos de degradação.
É por isso que a Amazônia e o Pantanal deixam de ser “temas ambientais” e se tornam um assunto de segurança nacional. Proteger a natureza é essencial para termos água para beber, produzir na agropecuária e gerar energia elétrica.
Vale também salientar o papel dos povos da floresta. O Censo 2022 registrou 1.693.535 pessoas indígenas no Brasil, e 51,2% delas vivem na Amazônia Legal. Isso reforça uma verdade óbvia e, às vezes, esquecida: conservar a floresta exige valorizar as pessoas que cuidam dela, com direitos, serviços públicos, segurança territorial e alternativas econômicas que recompensem aqueles que mantêm a floresta em pé.
Soluções baseadas na natureza e com foco em pessoas podem ser parte decisiva da solução. Um relatório do Conselho de Adaptação convocado pela Presidência da COP30, baseado em 60 planos locais construídos com povos indígenas e comunidades tradicionais, mostra que produção resiliente e bioeconomia aparecem entre as prioridades, ao lado de segurança hídrica e proteção territorial. Isso reforça que soluções baseadas na natureza — como sistemas agroflorestais e restauração florestal — podem gerar adaptação e mitigação ao mesmo tempo. Isso deve ser complementado por investimentos sociais em acesso à água, energia, educação, saúde, entre outros. O estudo estima em R$ 21,7 bilhões o custo inicial para implementar essas ações na Amazônia brasileira (cerca de US$ 4 bilhões).
O Brasil tem sido um protagonista importante na defesa do multilateralismo para o enfrentamento desses desafios. O que está em jogo é transformar atenção em urgência: precisamos que o desmatamento e a degradação sigam rumo a zero, com justiça social. Amazônia e Pantanal são centros vitais para a estabilidade ecológica e climática para o Brasil e para o mundo. A agenda das espécies migratórias nos traz uma mensagem simples e clara: estamos todos interligados e fazemos parte do mesmo planeta. Como não existe planeta B, temos que cuidar melhor da natureza.
Publicado originalmente no site Um Só Planeta, em 06/03/2026
Foto: Getty Images



