O que fazer diante dos descaminhos gerados pela indústria bélica e dos combustíveis fósseis
Mudanças no cenário geopolítico mundial têm levado a uma diminuição do engajamento de lideranças do setor público e privado no enfrentamento do aquecimento global. Não se trata de falta de evidências científicas, que a cada dia são mais fortes e alarmantes. Esse desengajamento é fomentado por interesses econômicos de curto prazo, que são representados por uma corrente política negacionista que tem uma articulação internacional e repercussão no Brasil.
Os interesses econômicos estão relacionados principalmente às indústrias dos combustíveis fósseis e bélica. Isso é o que move a agenda de fake news e o negacionismo climático, assim como o financiamento de lideranças políticas. Em que pese as metas de redução de emissões previstas no Acordo de Paris, a produção global de petróleo segue crescendo: aumentou 2,9% entre 2024 e 2025.
A indústria bélica conseguiu transformar a agenda das guerras numa prioridade política e orçamentária. Por exemplo, o orçamento militar dos EUA em 2026 superará 1 trilhão de dólares, com a perspectiva de ultrapassar 1,5 trilhão em 2027. Na China, o crescimento é da ordem de 7% de 2025 para 2026. O orçamento militar da Europa em 2026 está em fase de aumento histórico, com o gasto global de defesa na região atingindo patamares recordes, acima de 2% do PIB. Esses aumentos dos gastos com guerras diminui os investimentos no enfrentamento da emergência climática. A força política desses interesses pressiona lideranças públicas e privadas a evitar a agenda climática.
A questão que se coloca é o que fazer diante dos descaminhos gerados pela indústria bélica e dos combustíveis fósseis. Creio que um dos caminhos foi apontado no brilhante discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney, em Davos, ao defender a construção de alianças orientadas pela responsabilidade e pelo compromisso com o futuro. Precisamos fomentar coalizões envolvendo aqueles que são guiados pela ciência e pela responsabilidade com o destino da humanidade no planeta Terra. É essencial defendermos a paz e a transformação ecológica como fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Nesse sentido, um dos caminhos é investir em coalizões internacionais entre países que possuem lideranças políticas guiadas pelo binômio da ciência e espírito humanista. Na escala governamental, o Brasil tem um capital de liderança internacional relevante desde a Rio-92 e agora ampliada com a brilhante condução da COP30 e outras iniciativas (G20 etc.). Cabe ao Brasil fortalecer e ampliar o seu papel de liderança internacional na agenda climática e de sustentabilidade.
Na mesma direção, lideranças brasileiras do setor empresarial podem e devem fortalecer as atuais e, eventualmente, criar novas coalizões de líderes. Também na COP30 tivemos importantes avanços nesse segmento, com articulações que podem e devem ser ampliadas e institucionalizadas para dar mais consistência de longo prazo.
Por outro lado, a agenda da sociedade civil também pode e deve se fortalecer, ampliando e institucionalizando coalizões. A agenda principal deve ser a adaptação e o enfrentamento das injustiças climáticas. Como diria Darcy Ribeiro, não podemos nos resignar diante das injustiças históricas da sociedade brasileira. O mesmo também pode ser dito para as injustiças climáticas na esfera internacional, especialmente na África. Organizações da sociedade civil podem e devem ampliar suas coalizões tanto nacional quanto internacionalmente. Podemos desempenhar um papel relevante na cooperação Sul-Sul.
Por fim, as instituições de ciência e tecnologia também podem e devem ampliar suas coalizões em escala nacional e internacional. Caberá sempre à ciência um papel de “adulto na sala” para guiar o debate de forma objetiva, acima dos interesses econômicos e posições político-partidárias.
Essa nova importância das coalizões dos comprometidos com a agenda climática é essencial diante do enfraquecimento do multilateralismo. Estamos falando de coalizões guiadas pela ciência, com foco em ações práticas e não apenas em consciência platônica. Não se trata de abandonar a defesa do multilateralismo, mas, sim, reconhecer que os próximos anos serão muito difíceis e não podemos ficar num saudosismo ingênuo. Diante da emergência climática, temos que ser pragmáticos para que possamos seguir esperançosos.



