Remando na mesma direção - Blog Virgilio Viana

Remando na mesma direção

Remando na mesma direção
1 de abril de 2026 Vírgilio Viana

O que fazer diante dos descaminhos gerados pela indústria bélica e dos combustíveis fósseis

Mudanças no cenário geopolítico mundial têm levado a uma diminuição do engajamento de lideranças do setor público e privado no enfrentamento do aquecimento global. Não se trata de falta de evidências científicas, que a cada dia são mais fortes e alarmantes. Esse desengajamento é fomentado por interesses econômicos de curto prazo, que são representados por uma corrente política negacionista que tem uma articulação internacional e repercussão no Brasil.

Os interesses econômicos estão relacionados principalmente às indústrias dos combustíveis fósseis e bélica. Isso é o que move a agenda de fake news e o negacionismo climático, assim como o financiamento de lideranças políticas. Em que pese as metas de redução de emissões previstas no Acordo de Paris, a produção global de petróleo segue crescendo: aumentou 2,9% entre 2024 e 2025.

A indústria bélica conseguiu transformar a agenda das guerras numa prioridade política e orçamentária. Por exemplo, o orçamento militar dos EUA em 2026 superará 1 trilhão de dólares, com a perspectiva de ultrapassar 1,5 trilhão em 2027. Na China, o crescimento é da ordem de 7% de 2025 para 2026. O orçamento militar da Europa em 2026 está em fase de aumento histórico, com o gasto global de defesa na região atingindo patamares recordes, acima de 2% do PIB. Esses aumentos dos gastos com guerras diminui os investimentos no enfrentamento da emergência climática. A força política desses interesses pressiona lideranças públicas e privadas a evitar a agenda climática.

A questão que se coloca é o que fazer diante dos descaminhos gerados pela indústria bélica e dos combustíveis fósseis. Creio que um dos caminhos foi apontado no brilhante discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney, em Davos, ao defender a construção de alianças orientadas pela responsabilidade e pelo compromisso com o futuro. Precisamos fomentar coalizões envolvendo aqueles que são guiados pela ciência e pela responsabilidade com o destino da humanidade no planeta Terra. É essencial defendermos a paz e a transformação ecológica como fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Nesse sentido, um dos caminhos é investir em coalizões internacionais entre países que possuem lideranças políticas guiadas pelo binômio da ciência e espírito humanista. Na escala governamental, o Brasil tem um capital de liderança internacional relevante desde a Rio-92 e agora ampliada com a brilhante condução da COP30 e outras iniciativas (G20 etc.). Cabe ao Brasil fortalecer e ampliar o seu papel de liderança internacional na agenda climática e de sustentabilidade.

Na mesma direção, lideranças brasileiras do setor empresarial podem e devem fortalecer as atuais e, eventualmente, criar novas coalizões de líderes. Também na COP30 tivemos importantes avanços nesse segmento, com articulações que podem e devem ser ampliadas e institucionalizadas para dar mais consistência de longo prazo.

Por outro lado, a agenda da sociedade civil também pode e deve se fortalecer, ampliando e institucionalizando coalizões. A agenda principal deve ser a adaptação e o enfrentamento das injustiças climáticas. Como diria Darcy Ribeiro, não podemos nos resignar diante das injustiças históricas da sociedade brasileira. O mesmo também pode ser dito para as injustiças climáticas na esfera internacional, especialmente na África. Organizações da sociedade civil podem e devem ampliar suas coalizões tanto nacional quanto internacionalmente. Podemos desempenhar um papel relevante na cooperação Sul-Sul.

Por fim, as instituições de ciência e tecnologia também podem e devem ampliar suas coalizões em escala nacional e internacional. Caberá sempre à ciência um papel de “adulto na sala” para guiar o debate de forma objetiva, acima dos interesses econômicos e posições político-partidárias.

Essa nova importância das coalizões dos comprometidos com a agenda climática é essencial diante do enfraquecimento do multilateralismo. Estamos falando de coalizões guiadas pela ciência, com foco em ações práticas e não apenas em consciência platônica. Não se trata de abandonar a defesa do multilateralismo, mas, sim, reconhecer que os próximos anos serão muito difíceis e não podemos ficar num saudosismo ingênuo. Diante da emergência climática, temos que ser pragmáticos para que possamos seguir esperançosos.

Concluo com uma metáfora amazônica. Tenho dito que, diante do quadro atual de descaminhos generalizados, aqueles que comungam da mesma visão e propósito devem remar na mesma direção. Não importa se estamos na proa ou na popa: o barco está afundando. Por isso, temos que remar na mesma direção para ver se chegamos à beira, superando os banzeiros que a jornada da humanidade tornou inexoráveis.

Publicado originalmente no site Um Só Planeta, em 26/03/2026

 

Créditos de imagem: Samara Souza